Investimento de R$ 60 milhões em pesquisas é um passo crucial, mas o desafio agora é fazer a ciência chegar à mulher que depende do SUS
Por:
Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais
| Investir em saúde da mulher é dever do Estado. |
Para a
mulher da periferia de São Luís ou de qualquer outra capital brasileira, a
jornada por um diagnóstico de endometriose é uma via-crúcis que dura, em média,
dez anos. Enquanto o diagnóstico não vem, essa mulher perde empregos, abandona
estudos e vê sua qualidade de vida ser destruída por uma inflamação crônica que
a medicina oficial escolheu ignorar. Destinar R$ 50 milhões via CNPq e outros
R$ 10 milhões pela rede de pesquisa especializada é, acima de tudo, um ato de
justiça social para quem só tem o SUS como amparo.
É preciso
entender que a endometriose atinge cerca de 10% das mulheres em idade fértil.
Estamos falando de um contingente gigantesco de trabalhadoras que são
penalizadas por uma condição biológica. Quando o governo investe em tecnologia
para diagnóstico precoce, ele está investindo na economia, na produtividade e,
principalmente, no direito humano básico de viver sem dor. A ciência precisa
descer da torre de marfim e se traduzir em exames acessíveis e tratamento digno
na ponta, lá no posto de saúde do bairro.
A ministra
Luciana Santos foi certeira ao dizer que essa é uma resposta a um problema que
recebeu pouca atenção. O preconceito que cerca o ciclo menstrual sempre foi uma
barreira para o financiamento de pesquisas sérias. Se essa doença afetasse
homens na mesma proporção, será que já não teríamos soluções muito mais
avançadas? A verdade é dura, mas necessária: o descaso com a saúde menstrual é
uma forma de violência institucional contra a mulher.
Agora, a
nossa vigilância deve ser redobrada. Não basta o anúncio; precisamos de
transparência na aplicação desses recursos e agilidade para que essas novas
tecnologias de diagnóstico cheguem ao Sistema Único de Saúde. O conhecimento
gerado não pode ficar restrito a congressos internacionais; ele precisa virar
política pública de acolhimento. O caminho para a solução definitiva passa pela
criação de centros de referência em saúde menstrual em cada estado e pela
capacitação imediata de ginecologistas do SUS para identificar a endometriose
nos primeiros sintomas. Chega de sofrimento invisível.



