| o patrocínio invisível de algoritmos viciados. |
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
Vivemos o
apogeu de um novo tipo de extrativismo que faria os colonizadores do século
XVIII corarem de inveja. No lugar do ouro e do pau-brasil, a mercadoria da vez
é a nossa psique, transformada em pacotes de dados comercializáveis. As Big
Techs, sob o manto de uma neutralidade tecnológica que nunca existiu, operam
como estados soberanos dentro de nações que ainda tateiam no escuro da
regulação digital. É o neocolonialismo de silício, onde a soberania é trocada
por conveniência e o debate público é mediado por algoritmos que lucram
abertamente com o caos social e a polarização política.
É fascinante
— e profundamente irritante — observar como o discurso da 'liberdade de
expressão' é sequestrado por bilionários excêntricos e pela extrema-direita
para justificar o vale-tudo informacional. No Brasil, vimos de perto como a
falta de freios nessas plataformas permitiu a pavimentação de um ecossistema de
desinformação que quase nos custou a democracia. Para essas empresas, a
moderação de conteúdo é um custo indesejado que reduz o engajamento; para nós,
é uma questão de sobrevivência institucional. A hipocrisia é a norma: defendem
a liberdade absoluta para o discurso de ódio, enquanto combatem com unhas e
dentes qualquer tentativa de tributação justa ou responsabilização jurídica.
A soberania
digital não é um capricho nacionalista ou um flerte com a censura, como gostam
de bradar os arautos do livre mercado selvagem. Trata-se da capacidade básica
de um povo decidir as regras do jogo em seu próprio território. Quando o
Judiciário ou o Legislativo tentam impor limites ao poder desmedido dessas
corporações, a resposta é invariavelmente uma chantagem digital coordenada:
ameaças de retirada de serviços ou campanhas de difamação impulsionadas pelos
próprios mecanismos de busca. Eles não buscam ser parceiros do desenvolvimento
nacional; buscam ser os novos donos do cercado, operando acima de qualquer
constituição que não seja o seu próprio termo de uso.
No fim das contas, a resistência passa por entender que a tecnologia não é uma força da natureza, mas uma ferramenta política de controle e lucro. Precisamos de infraestrutura nacional, regulação séria e, acima de tudo, a coragem política de dizer que o Brasil não é uma fazenda de cliques. Sem o controle sobre nossos dados e sobre a lógica do que é impulsionado em nossas telas, a independência proclamada nos livros de história continuará sendo uma ficção conveniente para quem assiste a tudo de uma cobertura luxuosa no Vale do Silício.



