quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A INDIGESTA PROPOSTA DE ANISTIA

A história não perdoa quem tem memória curta.

Enquanto a extrema-direita tenta transformar golpistas em mártires, a democracia brasileira corre o risco de assinar o próprio atestado de óbito moral.

Dizem que o Brasil é o país do futuro, mas, ao observar a movimentação nos corredores de Brasília, percebemos que nossa especialidade é mesmo o retrocesso higienizado. A proposta de anistia aos envolvidos nos atos antidemocráticos não é um gesto de pacificação, como tentam vender os mercadores do caos. É, na verdade, uma tentativa de passar o pano — com água sanitária de má qualidade — sobre as manchas de depredação e ódio que marcaram o dia 8 de janeiro. A narrativa de 'vovozinhas presas' é o suprassumo da desonestidade intelectual, um verniz tosco aplicado sobre uma tentativa de golpe de Estado que só não se concretizou por pura incompetência logística e falta de apoio internacional.

Aqueles que ontem pediam 'intervenção militar' e 'fechamento do STF', hoje clamam por misericórdia sob o manto da democracia que tentaram estraçalhar. É a ironia suprema: usar as garantias constitucionais para proteger quem queria aniquilá-las. O bolsonarismo, em sua essência mais pura, opera nessa zona cinzenta onde a lei só serve para punir os adversários e o perdão é um direito divino reservado aos seus fiéis seguidores. Se permitirmos que esse projeto avance, estaremos dizendo que atentar contra a República é um erro administrativo passível de absolvição parlamentar, e não um crime de lesa-pátria.

Não podemos esquecer que o Brasil já cometeu esse erro antes. A anistia de 1979, embora necessária para o retorno dos exilados, serviu também para enterrar os crimes de torturadores e carrascos do regime militar. O resultado dessa 'conciliação' à brasileira é o que vemos hoje: um país onde militares se sentem no direito de tutelar a política e onde o fantasma do autoritarismo nunca deixou de rondar o Palácio do Planalto. Ao não punirmos exemplarmente os arquitetos e executores do vandalismo golpista, estamos apenas adubando o terreno para a próxima tentativa. A história, quando não é resolvida no tribunal, costuma se repetir como farsa ou como tragédia ainda mais sangrenta.

Justiça social e democracia não rimam com impunidade. Defender a punição rigorosa dos golpistas não é um ato de vingança política, mas de preservação do Estado de Direito. Se a corda sempre rompe do lado mais fraco, desta vez ela precisa segurar quem ousou testar a resistência das nossas instituições. A verdadeira pacificação virá quando todos — dos financiadores nos escritórios refrigerados aos peões no gramado — entenderem que a liberdade tem limites e que esses limites são as quatro paredes da Constituição. Sem isso, o que temos não é uma República, mas um condomínio de privilégios onde o crime compensa, desde que você tenha a bandeira certa nas costas.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

0 comentários:

Postar um comentário

Buscar no Site