| A história não perdoa quem tem memória curta. |
Dizem que o
Brasil é o país do futuro, mas, ao observar a movimentação nos corredores de
Brasília, percebemos que nossa especialidade é mesmo o retrocesso higienizado.
A proposta de anistia aos envolvidos nos atos antidemocráticos não é um gesto
de pacificação, como tentam vender os mercadores do caos. É, na verdade, uma
tentativa de passar o pano — com água sanitária de má qualidade — sobre as
manchas de depredação e ódio que marcaram o dia 8 de janeiro. A narrativa de
'vovozinhas presas' é o suprassumo da desonestidade intelectual, um verniz
tosco aplicado sobre uma tentativa de golpe de Estado que só não se concretizou
por pura incompetência logística e falta de apoio internacional.
Aqueles que
ontem pediam 'intervenção militar' e 'fechamento do STF', hoje clamam por
misericórdia sob o manto da democracia que tentaram estraçalhar. É a ironia
suprema: usar as garantias constitucionais para proteger quem queria
aniquilá-las. O bolsonarismo, em sua essência mais pura, opera nessa zona
cinzenta onde a lei só serve para punir os adversários e o perdão é um direito
divino reservado aos seus fiéis seguidores. Se permitirmos que esse projeto
avance, estaremos dizendo que atentar contra a República é um erro
administrativo passível de absolvição parlamentar, e não um crime de
lesa-pátria.
Não podemos
esquecer que o Brasil já cometeu esse erro antes. A anistia de 1979, embora
necessária para o retorno dos exilados, serviu também para enterrar os crimes
de torturadores e carrascos do regime militar. O resultado dessa 'conciliação'
à brasileira é o que vemos hoje: um país onde militares se sentem no direito de
tutelar a política e onde o fantasma do autoritarismo nunca deixou de rondar o
Palácio do Planalto. Ao não punirmos exemplarmente os arquitetos e executores
do vandalismo golpista, estamos apenas adubando o terreno para a próxima
tentativa. A história, quando não é resolvida no tribunal, costuma se repetir
como farsa ou como tragédia ainda mais sangrenta.
Justiça
social e democracia não rimam com impunidade. Defender a punição rigorosa dos
golpistas não é um ato de vingança política, mas de preservação do Estado de
Direito. Se a corda sempre rompe do lado mais fraco, desta vez ela precisa
segurar quem ousou testar a resistência das nossas instituições. A verdadeira
pacificação virá quando todos — dos financiadores nos escritórios refrigerados
aos peões no gramado — entenderem que a liberdade tem limites e que esses
limites são as quatro paredes da Constituição. Sem isso, o que temos não é uma
República, mas um condomínio de privilégios onde o crime compensa, desde que
você tenha a bandeira certa nas costas.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista




0 comentários:
Postar um comentário