quarta-feira, 10 de junho de 2026

ENTRE A FÉ NO DIREITO E A GRATIDÃO POLÍTICA, NUNES MARQUES ESCOLHEU O ESCUDO

Ao tentar esconder o declínio de Flávio Bolsonaro, a censura judicial apenas amplifica o ruído que pretendia abafar.

Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica

A caneta do ministro tenta silenciar o óbvio.
Vivemos tempos em que a realidade, quando incômoda, deve ser tratada como erro metodológico. A recente decisão do ministro Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, de suspender a divulgação da pesquisa AtlasIntel sobre a queda de Flávio Bolsonaro, é um primor de conveniência. Sob o pretexto de que o questionário estaria 'contaminado' por mencionar os áudios do Banco Master, o magistrado operou não apenas como juiz, mas como um zeloso editor da percepção pública. É a velha máxima: se os números não favorecem o herdeiro, que se quebre o termômetro.

A alegação de que as perguntas induziram os eleitores à negatividade é uma subestimação acintosa da inteligência do cidadão. Na verdade, o que se tenta esconder é o óbvio: o impacto de escândalos reais — como o diálogo nada republicano sobre investimentos cinematográficos com o dono do Banco Master — na imagem de quem almeja o topo. A justiça eleitoral, que deveria ser o árbitro da lisura, vê-se agora sob a sombra da gratidão togada, uma vez que Nunes Marques deve sua cadeira ao pai do beneficiado pela liminar.

O resultado desse zelo excessivo é o que a comunicação política conhece bem como 'Efeito Streisand'. Ao tentar apagar o incêndio dos 34,3%, o ministro apenas jogou holofotes sobre o declínio do senador. O silêncio imposto pela caneta monocrática gritou mais alto que qualquer dado estatístico. O que era uma notícia de rodapé sobre uma pesquisa de intenção de voto transformou-se em um debate nacional sobre a instrumentalização do TSE para blindar o clã Bolsonaro de notícias desfavoráveis.

Essa movimentação reforça a urgência do Plenário em retomar as rédeas da corte. O tempo das decisões solitárias, que mais parecem pagamentos de faturas passadas do que interpretações constitucionais, precisa findar. A democracia não sobrevive ao personalismo jurídico, especialmente quando este se manifesta para interditar o debate sobre a performance de pré-candidatos. O receio de que o tribunal se torne um puxadinho defensivo da direita é legítimo e corrói a confiança nas instituições que deveriam garantir o equilíbrio do pleito.

No fim das contas, a tentativa de segurar os ponteiros do relógio eleitoral através de liminares é um exercício de futilidade. Se a queda de Flávio Bolsonaro é um fato decorrente da exposição de seus bastidores financeiros, não há suspensão de pesquisa que cure a erosão da imagem política. Nunes Marques pode ter censurado o gráfico, mas não conseguiu apagar o áudio, nem a desconfiança de que a balança da justiça, às vezes, parece pender com uma facilidade assustadora para o lado de quem a indicou.

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