Ao tentar esconder o declínio de Flávio Bolsonaro, a censura judicial apenas amplifica o ruído que pretendia abafar.
Por:
Altair Inácio
Colunista de análise política crítica
| A caneta do ministro tenta silenciar o óbvio. |
A alegação
de que as perguntas induziram os eleitores à negatividade é uma subestimação
acintosa da inteligência do cidadão. Na verdade, o que se tenta esconder é o
óbvio: o impacto de escândalos reais — como o diálogo nada republicano sobre
investimentos cinematográficos com o dono do Banco Master — na imagem de quem
almeja o topo. A justiça eleitoral, que deveria ser o árbitro da lisura, vê-se
agora sob a sombra da gratidão togada, uma vez que Nunes Marques deve sua
cadeira ao pai do beneficiado pela liminar.
O resultado
desse zelo excessivo é o que a comunicação política conhece bem como 'Efeito
Streisand'. Ao tentar apagar o incêndio dos 34,3%, o ministro apenas jogou
holofotes sobre o declínio do senador. O silêncio imposto pela caneta
monocrática gritou mais alto que qualquer dado estatístico. O que era uma
notícia de rodapé sobre uma pesquisa de intenção de voto transformou-se em um
debate nacional sobre a instrumentalização do TSE para blindar o clã Bolsonaro
de notícias desfavoráveis.
Essa
movimentação reforça a urgência do Plenário em retomar as rédeas da corte. O
tempo das decisões solitárias, que mais parecem pagamentos de faturas passadas
do que interpretações constitucionais, precisa findar. A democracia não
sobrevive ao personalismo jurídico, especialmente quando este se manifesta para
interditar o debate sobre a performance de pré-candidatos. O receio de que o
tribunal se torne um puxadinho defensivo da direita é legítimo e corrói a
confiança nas instituições que deveriam garantir o equilíbrio do pleito.
No fim das
contas, a tentativa de segurar os ponteiros do relógio eleitoral através de
liminares é um exercício de futilidade. Se a queda de Flávio Bolsonaro é um
fato decorrente da exposição de seus bastidores financeiros, não há suspensão
de pesquisa que cure a erosão da imagem política. Nunes Marques pode ter
censurado o gráfico, mas não conseguiu apagar o áudio, nem a desconfiança de
que a balança da justiça, às vezes, parece pender com uma facilidade
assustadora para o lado de quem a indicou.




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