sexta-feira, 12 de junho de 2026

NA CALADA DA NOITE, CONGRESSO APROVA PROJETOS DE TRILHÕES DE REAIS

Como o Congresso orquestra uma asfixia financeira sob o manto da benevolência, ignorando a responsabilidade que tanto cobra do Executivo.

Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica

O plano do Congresso para inviabilizar o país.
É fascinante, para não dizer trágico, observar a elasticidade moral de certa ala do parlamento brasileiro. Aqueles que ontem rasgavam as vestes em defesa de um teto de gastos draconiano e pregavam a austeridade como dogma religioso diante de qualquer centavo destinado ao social, hoje operam uma calculadora mágica. O Senado acaba de chancelar um pacote de 'pautas-bomba' que, somadas, ultrapassam a cifra astronômica de R$ 2 trilhões em dez anos. O rigor fiscal, pelo visto, é uma ferramenta de conveniência que se dissolve diante dos interesses de setores que já operam sob o sol das subvenções estatais.

O destaque desse festival de generosidade com o chapéu alheio é a renegociação da dívida dos ruralistas. Estima-se que a União deixe de arrecadar R$ 1,4 trilhão para que bilionários do campo paguem menos impostos. É a consagração do 'socialismo para os ricos'. Enquanto o pequeno produtor luta contra a intempérie, o baronato do agronegócio — que se jacta de ser o motor do PIB — corre para os braços do Estado ao primeiro sinal de cobrança. Se dividirmos esse rombo pela população, cada brasileiro terá que tirar do bolso quase R$ 7.000 nos próximos dez anos para financiar o conforto fiscal de quem já tem muito.

Não satisfeitos em agraciar o campo, os parlamentares avançam sobre a fé e a saúde com uma precisão cirúrgica de quem quer inviabilizar o futuro. A chamada 'PEC das Igrejas', que amplia isenções e perdoa dívidas fiscais, é a instrumentalização definitiva da religiosidade como balcão de negócios tributários. São R$ 100 bilhões que evaporam sob o pretexto da liberdade de culto, mas que na prática alimentam impérios que fogem da fiscalização como o diabo foge da cruz. Somado a isso, as alterações na previdência e nos pisos da saúde, embora tragam no rótulo uma pretensa justiça social, são desenhadas sem qualquer lastro orçamentário, visando apenas o dividendo eleitoral imediato.

Para efeitos de comparação histórica, a duríssima Reforma da Previdência de 2019, que exigiu sacrifícios imensos da classe trabalhadora, prometia uma economia de R$ 800 bilhões em uma década. Com uma única canetada, o Senado aprovou medidas que custam o dobro dessa economia. É a prova cabal de que não há uma crise de recursos, mas uma crise de prioridades. O objetivo aqui não é o bem-estar da categoria A ou B, mas a criação de um cenário de terra arrasada para a gestão federal, asfixiando a governabilidade e criando um colapso artificial nas contas públicas.

Nesse xadrez de cinismo, o Supremo Tribunal Federal volta a ser o último refúgio da racionalidade administrativa. O ministro Gilmar Mendes já sinalizou que a festa sem conta não passará pelo crivo da constitucionalidade, uma vez que se ignora a origem dos recursos. Contudo, a estratégia política por trás dessas bombas é clara: empurrar o governo para o desgaste de vetar medidas populares ou de judicializar questões sensíveis às vésperas de eleições. No fim das contas, a fatura dessa politicagem será paga pelo cidadão comum, aquele que não tem bancada no Congresso e cujo único 'privilégio' é sustentar a hipocrisia de quem governa olhando apenas para o próprio umbigo.

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