Como o Congresso orquestra uma asfixia financeira sob o manto da benevolência, ignorando a responsabilidade que tanto cobra do Executivo.
Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica
| O plano do Congresso para inviabilizar o país. |
O destaque
desse festival de generosidade com o chapéu alheio é a renegociação da dívida
dos ruralistas. Estima-se que a União deixe de arrecadar R$ 1,4 trilhão para
que bilionários do campo paguem menos impostos. É a consagração do 'socialismo
para os ricos'. Enquanto o pequeno produtor luta contra a intempérie, o
baronato do agronegócio — que se jacta de ser o motor do PIB — corre para os
braços do Estado ao primeiro sinal de cobrança. Se dividirmos esse rombo pela
população, cada brasileiro terá que tirar do bolso quase R$ 7.000 nos próximos
dez anos para financiar o conforto fiscal de quem já tem muito.
Não
satisfeitos em agraciar o campo, os parlamentares avançam sobre a fé e a saúde
com uma precisão cirúrgica de quem quer inviabilizar o futuro. A chamada 'PEC
das Igrejas', que amplia isenções e perdoa dívidas fiscais, é a
instrumentalização definitiva da religiosidade como balcão de negócios
tributários. São R$ 100 bilhões que evaporam sob o pretexto da liberdade de
culto, mas que na prática alimentam impérios que fogem da fiscalização como o
diabo foge da cruz. Somado a isso, as alterações na previdência e nos pisos da
saúde, embora tragam no rótulo uma pretensa justiça social, são desenhadas sem
qualquer lastro orçamentário, visando apenas o dividendo eleitoral imediato.
Para efeitos de comparação histórica, a duríssima Reforma da Previdência de 2019, que exigiu sacrifícios imensos da classe trabalhadora, prometia uma economia de R$ 800 bilhões em uma década. Com uma única canetada, o Senado aprovou medidas que custam o dobro dessa economia. É a prova cabal de que não há uma crise de recursos, mas uma crise de prioridades. O objetivo aqui não é o bem-estar da categoria A ou B, mas a criação de um cenário de terra arrasada para a gestão federal, asfixiando a governabilidade e criando um colapso artificial nas contas públicas.
Nesse xadrez de cinismo, o Supremo Tribunal Federal volta a ser o último refúgio da racionalidade administrativa. O ministro Gilmar Mendes já sinalizou que a festa sem conta não passará pelo crivo da constitucionalidade, uma vez que se ignora a origem dos recursos. Contudo, a estratégia política por trás dessas bombas é clara: empurrar o governo para o desgaste de vetar medidas populares ou de judicializar questões sensíveis às vésperas de eleições. No fim das contas, a fatura dessa politicagem será paga pelo cidadão comum, aquele que não tem bancada no Congresso e cujo único 'privilégio' é sustentar a hipocrisia de quem governa olhando apenas para o próprio umbigo.




0 comentários:
Postar um comentário