CCJ aprova PEC que joga jovens de 16 anos em presídios falidos; medida ignora a raiz da violência e foca no populismo punitivo para ganhar curtidas e votos.
Por:
Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais
| Reduzir a maioridade penal é
transferência de responsabilidade. |
Os números
não mentem, mas os políticos que defendem essa barbárie parecem ignorá-los
propositalmente. A taxa de reincidência no sistema prisional comum atinge 42%,
enquanto no sistema socioeducativo o índice é de 23%. Ao empurrarmos jovens de
16 e 17 anos para o sistema penal comum, não estamos combatendo o crime;
estamos fornecendo mão de obra jovem e vulnerável para as facções criminosas
que dominam as penitenciárias do país. É um recrutamento forçado promovido pelo
próprio Estado sob o disfarce de 'justiça'.
Em São Luís,
vemos diariamente como a ausência do Estado nas comunidades periféricas cria um
vácuo preenchido pela criminalidade. O adolescente que não tem acesso a um
esporte, a uma cultura ou a uma formação técnica de qualidade torna-se alvo
fácil. Reduzir a maioridade penal é dizer para esses jovens que o único projeto
de futuro que o Brasil tem para eles é uma cela superlotada. É punir o efeito
ignorando totalmente a causa, alimentando um ciclo de violência que só tende a
piorar com o passar dos anos.
O discurso
da 'impunidade' é uma cortina de fumaça. O Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA) já prevê medidas de privação de liberdade para atos infracionais graves.
O que falta não é lei mais dura, é a aplicação correta e humana do que já
existe. Querem tratar jovens como adultos na hora de punir, mas negam a eles os
direitos mais básicos de dignidade humana. É uma hipocrisia sem precedentes que
serve apenas para alimentar o populismo punitivo da extrema direita em
Brasília.
A solução
não passa pelas grades, mas pela estrutura social. Precisamos de uma reforma
urgente no sistema socioeducativo para que ele seja verdadeiramente
recuperador, além de um investimento pesado em educação básica e assistência
social. O caminho resolutivo é simples: para cada vaga em presídio que se
pretende criar para um jovem, o Estado deveria ser obrigado a construir dez
escolas de excelência. Quem ganha quando trocamos a sala de aula pelo
calabouço? Certamente não é a sociedade.




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