segunda-feira, 15 de junho de 2026

A ILUSÃO DO EMPREENDEDORISMO E O ABISMO DA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO

Enquanto grandes plataformas lucram bilhões, o trabalhador de São Luís enfrenta a fome e a falta de garantias mínimas de sobrevivência.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais

Trabalhar até a exaustão sem direitos não é liberdade.
Não dá mais para aceitar o discurso cínico de que a precarização do trabalho é 'liberdade'. O que vemos hoje nas ruas de São Luís e em todo o Brasil não é a ascensão de novos empreendedores, mas sim uma massa de trabalhadores sendo empurrada para o abismo da informalidade, sem férias, sem décimo terceiro e sem qualquer segurança em caso de doença ou acidente. O suor de quem pedala doze horas por dia para entregar comida ou de quem dirige sem parar para pagar o aluguel do carro está alimentando lucros astronômicos de empresas que não assumem qualquer responsabilidade social.

A reforma trabalhista, vendida anos atrás como a solução mágica para o desemprego, mostrou sua verdadeira face: uma máquina de triturar direitos. Prometeram empregos e entregaram o 'bico' institucionalizado. O resultado é uma insegurança jurídica e social que atinge violentamente a base da nossa pirâmide. No Maranhão, onde a desigualdade histórica já é um fardo pesado, a falta de políticas públicas que protejam o trabalhador informal aprofunda ainda mais a ferida da fome e da exclusão social.

É preciso olhar com atenção para quem mais sofre nesse cenário: as mulheres e as populações negras. São elas que ocupam os postos mais frágeis, que acumulam jornadas duplas ou triplas e que, ao final do mês, ainda precisam escolher entre pagar a conta de luz ou comprar o leite das crianças. A ausência de creches públicas e de uma rede de apoio eficiente em nossa capital torna o mercado de trabalho um ambiente de exclusão, e não de oportunidade, para quem realmente carrega o país nas costas.

O silêncio das autoridades de Brasília e a lentidão do poder público local em fiscalizar abusos são cúmplices dessa exploração. Não se trata apenas de economia, trata-se de dignidade humana. Quando um trabalhador é tratado como um mero 'recurso' descartável por um algoritmo, a democracia é que sai ferida. A tecnologia deveria servir para emancipar o ser humano, não para escravizá-lo em uma rotina de incertezas onde o amanhã é sempre um ponto de interrogação desesperador.

A solução passa obrigatoriamente pela regulação imediata do trabalho por aplicativos e pelo fortalecimento dos sindicatos, que precisam se reinventar para proteger esses novos perfis de trabalhadores. Precisamos de um Pacto Social que garanta uma renda mínima de cidadania e proteção previdenciária universal. A pergunta que deixo para os nossos governantes é: até quando vamos assistir, de braços cruzados, a volta de uma relação de trabalho que beira a servidão em pleno século XXI?

0 comentários:

Postar um comentário

Buscar no Site