Quando o aparato de inteligência do Estado é reduzido a um escritório de dossiês contra adversários políticos.
Colunista de análise política crítica
| A política brasileira e o vício de usar as sombras. |
A utilização
de softwares invasivos e a criação de uma estrutura paralela de informações
revelam uma face sombria da gestão pública. Onde deveria haver estratégia de
segurança nacional, encontrou-se um balcão de negócios para a chantagem e a
intimidação. A inteligência, que por definição deveria proteger o Estado contra
ameaças externas e o crime organizado, foi domesticada para se tornar a
segurança privada de um clã e de seus aliados mais próximos. O Estado, sob essa
lógica, deixa de ser garantidor de direitos para se tornar o espião no pé do
ouvido.
A ironia é
fina e cortante: os arautos da liberdade individual são os mesmos que não
hesitaram em invadir a intimidade de parlamentares, jornalistas e até
ministros. A narrativa da 'liberdade de expressão' morre na primeira esquina
quando o assunto é o monitoramento clandestino de críticos. Trata-se da velha
tática de desconstruir reputações antes mesmo que qualquer debate político
comece. É o governo transformado em uma fábrica de dossiês, onde a verdade é um
detalhe incômodo diante da eficácia de uma mentira bem monitorada.
No Maranhão, conhecemos bem os ecos dessas práticas. A política de bastidores, muitas vezes marcada pelo coronelismo de novo tipo, sempre flertou com o controle da informação como moeda de troca. Ver essa dinâmica ganhar escala federal com tecnologias de ponta é assistir ao pior do atraso se casando com o que há de mais moderno na vigilância global. O poder, quando se sente ameaçado, não busca o diálogo; ele busca o segredo do outro para usá-lo como arma. A política, assim, deixa de ser o campo das ideias para se tornar o campo da sabotagem pessoal.
Restabelecer a integridade das instituições de inteligência é o desafio imediato para evitar que a democracia brasileira sangre por mil cortes invisíveis. Não basta punir os operadores do sistema; é preciso expor a mentalidade que acredita que o Estado é um brinquedo de espionagem a serviço de conveniências eleitorais. Enquanto a inteligência for tratada como ferramenta de perseguição, a República continuará sendo apenas uma fachada para os interesses de quem detém a senha do sistema de plantão. O silêncio dos cúmplices de ontem é o barulho ensurdecedor da hipocrisia de hoje.




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