A inclusão de Jaques Wagner no radar das investigações testa a resiliência ética do governo e escancara o abismo institucional entre o lulismo e o bolsonarismo.
Por:
Altair Inácio
Colunista de análise política crítica
| Jaques Wagner nega, o PT cobra CPMI, e a República testa seu fôlego institucional. |
A política brasileira, em sua ironia quase literária, adora pregar peças naqueles que acreditam em roteiros lineares. O Caso Master, que inicialmente parecia destinado a incinerar apenas os asseclas da dinastia bolsonarista, estendeu seus tentáculos e alcançou o coração do governo no Senado. A menção ao nome de Jaques Wagner, atual líder do governo e figura central na articulação petista, não é apenas um percalço jurídico; é um teste de estresse para a narrativa de pureza institucional que o atual Planalto tenta consolidar após os anos de chumbo da intervenção direta.
Jaques
Wagner, com a fleuma que lhe é característica, apressou-se em declarar que sua
relação com Daniel Vorcaro é “praticamente zero”. É a clássica dança do
distanciamento em Brasília: nega-se a intimidade enquanto o partido, em um
movimento de contra-ataque calculado, exige uma CPMI para devassar as entranhas
do Banco Master. O PT sabe que, no xadrez da capital, a melhor defesa é a
ampliação do palco do conflito, transformando uma investigação pontual em um
espetáculo de transparência forçada que pode, no limite, expurgar seus próprios
pecados ao expor os alheios.
A grande
questão que paira sobre a Praça dos Três Poderes, no entanto, não é apenas o
conteúdo das denúncias, mas o método de reação. Como bem pontuou a jornalista
Andréia Sadi, vivemos um momento de reafirmação da autonomia da Polícia
Federal. Ao contrário do governo anterior, onde a interferência era anunciada
em reuniões ministeriais gravadas e o comando da corporação era trocado
conforme a proximidade das investigações com o clã presidencial, o atual
governo Lula parece manter a tradição de deixar a máquina moer, mesmo que ela
moa seus próprios aliados.
Recordar a famigerada reunião de 22 de abril de 2020 é essencial para traçar esse contraponto. Naquela ocasião, Jair Bolsonaro deixou claro que não esperaria “lascar” sua família ou seus amigos para intervir nos comandos da PF. Era a institucionalização do compadrio. Hoje, a postura do governo em relação a Wagner e ao Caso Master tenta resgatar a lógica que vigorou nos governos Dilma e no início da era Lula: a de que o preço de ser governo em uma democracia funcional é aceitar o risco de ser investigado pela própria polícia que se chefia. É um republicanismo que dói no fígado, mas que mantém as instituições em pé.
Contudo, essa isenção não é isenta de riscos políticos. A oposição, sedenta por uma equivalência moral que a redima, tentará transformar o imbróglio de Jaques Wagner no novo “Mensalão”, ignorando as diferenças estruturais de manejo da força policial. No fim das contas, o Caso Master servirá como o espelho onde o Brasil verá se as lições do passado foram aprendidas: se a lei é realmente para todos ou se a conveniência política voltará a ditar o ritmo das algemas. A conferir os próximos capítulos dessa trama onde a ética, mais uma vez, é o prato principal.




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