sexta-feira, 19 de junho de 2026

MISOGINIA AGORA É CRIME COM PESO DE RACISMO: BRASÍLIA ENTENDE QUE O ÓDIO ÀS MULHERES MATA

O avanço da lei que equipara o ódio às mulheres ao racismo é uma vitória histórica, mas o papel aceita tudo; a prática exige orçamento real e coragem política.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais

Projeto que avança na Câmara vai atingir
quem lucra com ataques às mulheres.

Finalmente, o Estado brasileiro parece acordar para uma realidade que as mulheres enfrentam há séculos: o ódio de gênero não é um mal-entendido ou uma 'brincadeira' de mau gosto, é um veneno estrutural que corrói a dignidade humana. O projeto que criminaliza a misoginia e a equipara ao crime de racismo, avançando agora na Câmara, é um passo fundamental. Ao colocar o machismo violento no mesmo patamar jurídico do racismo — tornando-o inafiançável e imprescritível —, a legislação deixa de tratar a violência contra a mulher como uma questão doméstica menor e a reconhece como uma afronta direta à democracia e aos direitos humanos.

Essa mudança é estratégica, especialmente quando olhamos para o esgoto das redes sociais. Vivemos um tempo em que influenciadores ganham milhões de seguidores e muito dinheiro pregando o desprezo pelas mulheres, camuflando o ódio sob o rótulo de 'estilo de vida' ou 'redpill'. O novo texto ataca o bolso desses mercadores do ódio ao prever penas mais severas para ataques digitais que buscam lucro e engajamento. Já passou da hora de responsabilizar as plataformas e os criadores de conteúdo que transformaram a desumanização feminina em um modelo de negócio lucrativo e perigoso.

Aqui no Maranhão, e especialmente em São Luís, sabemos que a lei sozinha não faz milagre se não houver estrutura na ponta. O parecer da deputada Tabata Amaral acerta ao prever o fortalecimento das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams). No entanto, precisamos cobrar que esse 'fortalecimento' saia do papel e se transforme em delegacias abertas 24 horas, com equipes multidisciplinares e orçamento garantido. Uma mulher agredida no sábado à noite na periferia não pode esperar até segunda-feira de manhã para ser acolhida por um Estado que diz protegê-la.

Além disso, é preciso olhar para as entrelinhas do jogo político em Brasília. O adiamento da votação para o fim de junho mostra que os direitos das mulheres ainda são usados como moeda de troca nas mesas de negociação. Enquanto parlamentares discutem prazos e acordos, mulheres continuam sendo silenciadas, humilhadas e mortas. Não podemos aceitar que pautas de sobrevivência básica sejam tratadas com a lentidão de quem não sente na pele o medo de ser atacada por ser quem é.

A verdadeira transformação, contudo, não virá apenas com o código penal. Precisamos de educação e autonomia. O projeto menciona a importância da autonomia financeira e de campanhas de conscientização, e é aí que o governo federal e as prefeituras precisam investir pesado. Punir o agressor é o remédio para o sintoma, mas educar a sociedade e dar condições para que a mulher saia do ciclo de violência é a cura para a doença social que nos assola.

A solução definitiva exige que a implementação dessa lei seja acompanhada de uma fiscalização rigorosa e um Orçamento Geral da União que priorize, de fato, as políticas de gênero. Não basta criar o crime; é preciso garantir que cada delegacia tenha recursos e que cada escola tenha currículos voltados para a igualdade. O meu questionamento é simples: o Estado está pronto para investir o que é necessário para que essa lei não seja apenas mais uma esperança frustrada na vida das brasileiras?

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