| O dízimo político custa caro para a democracia |
Não é de
hoje que a fé, esse refúgio íntimo da alma, vem sendo
tratada como commodity
eleitoral no Brasil. O que antes era uma busca por representação legítima de
valores transformou-se em um projeto de poder absoluto e asfixiante. A bancada
da bíblia, outrora um grupo de pressão periférico, hoje dita o ritmo da música
no Congresso Nacional, regendo não por salmos, mas por conveniências
orçamentárias e retrocessos civilizatórios. O perigo não reside na crença do
indivíduo, mas na pretensão de transformar o dogma de alguns em lei para todos.
O que
assistimos na última década, sob a sombra nefasta do bolsonarismo, não foi um
avivamento espiritual, mas uma estratégia deliberada de ocupação de espaços. O
discurso do 'Deus acima de todos' serviu como uma luva para ocultar as mãos
sujas na lama do orçamento secreto e do aparelhamento estatal. A religião foi
sequestrada para legitimar o ódio, a exclusão de minorias e o desmonte de
políticas públicas fundamentais, tudo sob o pretexto de defesa de uma 'família
tradicional' que, na prática, só existe nos panfletos de campanha e nas contas
bancárias dos tele-evangelistas.
A hipocrisia
é o tempero principal dessa ceia. Enquanto pregam a austeridade moral e o
sacrifício nos palcos iluminados, nos bastidores de Brasília a barganha é por
isenções fiscais bilionárias e cargos em estatais. O fundamentalismo brasileiro
descobriu que é muito mais lucrativo vender o paraíso no Legislativo do que
apenas no Reino dos Céus. A mistura explosiva entre fanatismo e sede de poder
criou um ambiente onde a ciência é ignorada, a cultura é perseguida e a
diversidade é tratada como pecado capital passível de punição jurídica.
Defender o
Estado Laico não é atacar a religião; é, ironicamente, a única forma de
garantir que todas as crenças — e as descrenças — possam coexistir sem que uma
canetada de inspiração divina apague os direitos conquistados a duras penas.
Precisamos resgatar a política da esfera do sagrado e devolvê-la ao terreno da
razão e da justiça social. Enquanto o dízimo da democracia for pago com o
sangue da laicidade, continuaremos a ser uma nação ajoelhada perante mercadores
da fé que usam o nome de Deus para assinar cheques em branco.
Por: Emerson Marinho
Bacharel em Comunicação e Colunista




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