quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A INVASÃO DA IGREJA NO CORAÇÃO DO PODER

O dízimo político custa caro para a democracia

Como o fundamentalismo religioso sequestrou o debate público e transformou o Estado Laico em um balcão de negócios morais e isenções fiscais.

Não é de hoje que a fé, esse refúgio íntimo da alma, vem sendo
tratada como commodity eleitoral no Brasil. O que antes era uma busca por representação legítima de valores transformou-se em um projeto de poder absoluto e asfixiante. A bancada da bíblia, outrora um grupo de pressão periférico, hoje dita o ritmo da música no Congresso Nacional, regendo não por salmos, mas por conveniências orçamentárias e retrocessos civilizatórios. O perigo não reside na crença do indivíduo, mas na pretensão de transformar o dogma de alguns em lei para todos.

O que assistimos na última década, sob a sombra nefasta do bolsonarismo, não foi um avivamento espiritual, mas uma estratégia deliberada de ocupação de espaços. O discurso do 'Deus acima de todos' serviu como uma luva para ocultar as mãos sujas na lama do orçamento secreto e do aparelhamento estatal. A religião foi sequestrada para legitimar o ódio, a exclusão de minorias e o desmonte de políticas públicas fundamentais, tudo sob o pretexto de defesa de uma 'família tradicional' que, na prática, só existe nos panfletos de campanha e nas contas bancárias dos tele-evangelistas.

A hipocrisia é o tempero principal dessa ceia. Enquanto pregam a austeridade moral e o sacrifício nos palcos iluminados, nos bastidores de Brasília a barganha é por isenções fiscais bilionárias e cargos em estatais. O fundamentalismo brasileiro descobriu que é muito mais lucrativo vender o paraíso no Legislativo do que apenas no Reino dos Céus. A mistura explosiva entre fanatismo e sede de poder criou um ambiente onde a ciência é ignorada, a cultura é perseguida e a diversidade é tratada como pecado capital passível de punição jurídica.

Defender o Estado Laico não é atacar a religião; é, ironicamente, a única forma de garantir que todas as crenças — e as descrenças — possam coexistir sem que uma canetada de inspiração divina apague os direitos conquistados a duras penas. Precisamos resgatar a política da esfera do sagrado e devolvê-la ao terreno da razão e da justiça social. Enquanto o dízimo da democracia for pago com o sangue da laicidade, continuaremos a ser uma nação ajoelhada perante mercadores da fé que usam o nome de Deus para assinar cheques em branco.

Por: Emerson Marinho
Bacharel em Comunicação e Colunista

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