quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A NARRATIVA DO MERCADO PARA DÓLAR BAIXO E BOLSA EM ALTA

A Economia Real versus a Narrativa do Mercado
Análise crítica sobre como recordes na bolsa e queda do dólar são ofuscados pelo debate seletivo do endividamento público.

Por: Henrique Alvarenga
Jornalista, analista político e colunista

O Brasil atravessa um momento de indicadores macroeconômicos que, em qualquer outro contexto, seriam celebrados sem ressalvas: o dólar atinge patamares baixos e a bolsa de valores acumula recordes sucessivos. No entanto, a cobertura jornalística hegemônica, intimamente ligada aos interesses do mercado financeiro, opta por um tom de constante sobressalto. O foco recai sobre o aumento do endividamento público, mas sem a devida transparência sobre as engrenagens que movem esse número.

Aqui é onde a narrativa começa a escorregar. O dado sobre o crescimento da dívida de fato existe, mas o contexto foi omitido. O principal vetor desse aumento não é o investimento em programas sociais, como muitos analistas sugerem, mas sim o custo astronômico da taxa Selic. Manter os juros em patamares elevados encarece exponencialmente o serviço da dívida pública. Além disso, o país ainda lida com o peso de passivos fiscais herdados de gestões anteriores, um fator estrutural que é convenientemente ignorado quando o objetivo é pressionar o atual governo por cortes de gastos.

O mercado financeiro insiste na tese de que o governo precisa equilibrar as contas apenas pelo lado do corte, enquanto o Executivo trata esses aportes como investimento social necessário para o desenvolvimento humano e econômico. O que se omite é que, mesmo com prognósticos favoráveis e inflação dentro da meta, a resistência em reduzir os juros de forma robusta desafia a lógica produtiva. Alega-se que o baixo desemprego e o aumento dos salários poderiam gerar inflação, uma visão que, na prática, pune a melhoria da qualidade de vida do trabalhador em benefício da rentabilidade do capital especulativo.

A manutenção de uma taxa de juros punitiva diante de um cenário de crescimento e estabilidade cambial revela que a preocupação do mercado não é apenas técnica, mas política. É por isso que importa questionar a quem serve a manutenção de um país caro para quem produz e extremamente lucrativo para quem vive de juros. A informação honesta exige que coloquemos todos os componentes da equação sobre a mesa, e não apenas aqueles que justificam a austeridade seletiva.

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