| Queimadas exigem análise, não apenas slogans políticos. |
A crise das
queimadas no Brasil não pode ser resumida a um simples gráfico ou a um post de
rede social inflamado. O que vemos hoje é a convergência de dois fenômenos
distintos: um cenário climático extremo, potencializado pelo aquecimento global
e pela severidade de fenômenos como o El Niño, e a persistência de crimes
ambientais que se aproveitam dessa vulnerabilidade territorial. Antes da
opinião, os fatos. É fundamental entender que o fogo, em biomas como a Amazônia
e o Pantanal, raramente é um evento puramente espontâneo; ele é, em larga
escala, uma ferramenta de manejo ilegal.
Frequentemente,
observamos o uso político de números isolados do INPE para validar discursos
pré-fabricados. Quando se aponta apenas para o aumento dos focos sem mencionar
a seca histórica dos rios ou a baixa umidade do ar, que transformam qualquer
fagulha em um desastre de proporções continentais, o objetivo não é informar,
mas sim desgastar ou proteger atores específicos. “Aqui é onde a narrativa
começa a escorregar.” A realidade técnica exige que olhemos para a complexidade
da fiscalização em um território vasto, onde a redução do desmatamento nem
sempre impede o avanço das chamas em áreas já degradadas.
“Toda
narrativa pede uma pergunta básica: quem ganha com isso?” A distorção
estratégica dos fatos muitas vezes serve para ocultar os reais beneficiários do
fogo: a grilagem de terras, o avanço da fronteira agrícola irregular e o crime
organizado que opera nas brechas das instituições. O debate público, ao se perder
em polarizações superficiais, acaba por oferecer uma cortina de fumaça que
impede a fiscalização rigorosa e a necessária responsabilização jurídica. O
objetivo é manter o status quo da impunidade enquanto a biodiversidade é
consumida.
“Informação
não é torcida.” A solução para a crise climática e para o combate sistemático
às queimadas passa, necessariamente, pelo fortalecimento institucional e pela
valorização da ciência ambiental. Não se combate fogo com retórica, mas com
orçamento, inteligência e cooperação entre entes federativos. Precisamos
resgatar a sobriedade no debate ambiental para que a proteção dos nossos biomas
seja uma política de Estado perene, e não um acessório de conveniência
partidária. “Pensar dá trabalho — e é justamente por isso que importa.”
Por: Henrique Alvarenga.
Jornalista, analista político e colunista




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