quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A CRISE CLIMÁTICA E QUEM GANHA COM ELA

Queimadas exigem análise, não apenas slogans políticos.
Entre a crise climática real e o uso político das cinzas, a análise técnica revela que o silêncio e a distorção são as maiores ameaças à preservação ambiental.

A crise das queimadas no Brasil não pode ser resumida a um simples gráfico ou a um post de rede social inflamado. O que vemos hoje é a convergência de dois fenômenos distintos: um cenário climático extremo, potencializado pelo aquecimento global e pela severidade de fenômenos como o El Niño, e a persistência de crimes ambientais que se aproveitam dessa vulnerabilidade territorial. Antes da opinião, os fatos. É fundamental entender que o fogo, em biomas como a Amazônia e o Pantanal, raramente é um evento puramente espontâneo; ele é, em larga escala, uma ferramenta de manejo ilegal.

Frequentemente, observamos o uso político de números isolados do INPE para validar discursos pré-fabricados. Quando se aponta apenas para o aumento dos focos sem mencionar a seca histórica dos rios ou a baixa umidade do ar, que transformam qualquer fagulha em um desastre de proporções continentais, o objetivo não é informar, mas sim desgastar ou proteger atores específicos. “Aqui é onde a narrativa começa a escorregar.” A realidade técnica exige que olhemos para a complexidade da fiscalização em um território vasto, onde a redução do desmatamento nem sempre impede o avanço das chamas em áreas já degradadas.

“Toda narrativa pede uma pergunta básica: quem ganha com isso?” A distorção estratégica dos fatos muitas vezes serve para ocultar os reais beneficiários do fogo: a grilagem de terras, o avanço da fronteira agrícola irregular e o crime organizado que opera nas brechas das instituições. O debate público, ao se perder em polarizações superficiais, acaba por oferecer uma cortina de fumaça que impede a fiscalização rigorosa e a necessária responsabilização jurídica. O objetivo é manter o status quo da impunidade enquanto a biodiversidade é consumida.

“Informação não é torcida.” A solução para a crise climática e para o combate sistemático às queimadas passa, necessariamente, pelo fortalecimento institucional e pela valorização da ciência ambiental. Não se combate fogo com retórica, mas com orçamento, inteligência e cooperação entre entes federativos. Precisamos resgatar a sobriedade no debate ambiental para que a proteção dos nossos biomas seja uma política de Estado perene, e não um acessório de conveniência partidária. “Pensar dá trabalho — e é justamente por isso que importa.”

Por: Henrique Alvarenga.
Jornalista, analista político e colunista

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