terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O AGRO É TECH, O AGRO É POP, O AGRO É PÓSTUMO

O cinismo dessa elite agrária ainda vai nos deixar sem sede.

Enquanto o agronegócio dita o ritmo do PIB em Brasília, o país respira a fuligem de um modelo de desenvolvimento que ignora o colapso ambiental iminente.

Não há eufemismo que resista a um céu cor de chumbo e ao cheiro de queimado que invade as metrópoles brasileiras. O discurso do 'Agro é Tech' desmorona diante da realidade de rios que secam e biomas que viram cinzas para dar lugar ao pasto ou à monocultura de exportação. É uma ironia trágica: o setor que mais se beneficia da generosidade da nossa terra é o mesmo que, através de um lobby feroz e bem financiado, trabalha incansavelmente para flexibilizar legislações ambientais e passar a boiada sobre o que resta de proteção jurídica para nossas florestas. O lucro imediato de poucos está sendo lastreado pela falência respiratória de muitos.

A crise climática deixou de ser uma previsão distópica para se tornar o cotidiano sufocante de quem vive entre a fumaça e a poeira. O agronegócio predatório, braço direito de um conservadorismo que flerta com o negacionismo científico, parece ignorar que sem água e sem clima estável, nem mesmo a soja terá onde crescer. Mas a lógica financeira de curto prazo não permite tal lucidez; prefere-se o subsídio estatal e o perdão de dívidas enquanto se grita por 'liberdade' para desmatar.

No Congresso, a bancada ruralista opera como um trator desgovernado. Projetos que visam o licenciamento ambiental autodeclaratório e o uso indiscriminado de agrotóxicos proibidos no exterior avançam com uma celeridade que a fome do povo brasileiro jamais conheceu. É a institucionalização da rapina. O legado deixado pelo bolsonarismo na gestão ambiental não foi apenas um hiato administrativo, mas uma autorização moral para que o crime ambiental se tornasse um modelo de negócio lucrativo e impune.

Defender a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal hoje não é uma questão de militância ideológica, mas de sobrevivência nacional básica. Precisamos questionar quem realmente ganha com o deserto que estamos construindo. A justiça social e a preservação do meio ambiente são indissociáveis; não existe democracia em um país onde o ar é privilégio e a água é mercadoria escassa.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

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