| O cinismo dessa elite agrária ainda vai nos deixar sem sede. |
Não há eufemismo que resista a um céu
cor de chumbo e ao cheiro de queimado que invade as metrópoles brasileiras. O
discurso do 'Agro é Tech' desmorona diante da realidade de rios que secam e
biomas que viram cinzas para dar lugar ao pasto ou à monocultura de exportação.
É uma ironia trágica: o setor que mais se beneficia da generosidade da nossa
terra é o mesmo que, através de um lobby feroz e bem financiado, trabalha
incansavelmente para flexibilizar legislações ambientais e passar a boiada
sobre o que resta de proteção jurídica para nossas florestas. O lucro imediato
de poucos está sendo lastreado pela falência respiratória de muitos.
A crise climática deixou de ser uma
previsão distópica para se tornar o cotidiano sufocante de quem vive entre a
fumaça e a poeira. O agronegócio predatório, braço direito de um
conservadorismo que flerta com o negacionismo científico, parece ignorar que
sem água e sem clima estável, nem mesmo a soja terá onde crescer. Mas a lógica
financeira de curto prazo não permite tal lucidez; prefere-se o subsídio
estatal e o perdão de dívidas enquanto se grita por 'liberdade' para desmatar.
No Congresso, a bancada ruralista opera
como um trator desgovernado. Projetos que visam o licenciamento ambiental
autodeclaratório e o uso indiscriminado de agrotóxicos proibidos no exterior
avançam com uma celeridade que a fome do povo brasileiro jamais conheceu. É a
institucionalização da rapina. O legado deixado pelo bolsonarismo na gestão
ambiental não foi apenas um hiato administrativo, mas uma autorização moral
para que o crime ambiental se tornasse um modelo de negócio lucrativo e impune.
Defender a Amazônia, o Cerrado e o
Pantanal hoje não é uma questão de militância ideológica, mas de sobrevivência
nacional básica. Precisamos questionar quem realmente ganha com o deserto que
estamos construindo. A justiça social e a preservação do meio ambiente são
indissociáveis; não existe democracia em um país onde o ar é privilégio e a
água é mercadoria escassa.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista




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