| O debate econômico precisa de menos torcida e mais lógica |
Por: Henrique Alvarenga.
Jornalista, analista político e colunista
Toda
narrativa pede uma pergunta básica: quem ganha com isso? Ao analisarmos a
autonomia do Banco Central, estabelecida formalmente pela Lei Complementar 179
em 2021, precisamos antes de tudo definir o que ela representa tecnicamente no
ordenamento jurídico brasileiro. A ideia central proposta pelo legislador foi
blindar a autoridade monetária de pressões político-eleitorais imediatistas,
permitindo que a meta de inflação seja perseguida com um horizonte de longo
prazo. Contudo, essa autonomia não significa independência absoluta da
realidade social do país ou ausência de responsabilidade política perante os
objetivos de desenvolvimento.
Frequentemente,
o debate público é reduzido a uma briga de torcidas entre o governo eleito e o
corpo técnico do BC, personificado em sua diretoria. O dado sobre a taxa Selic
elevada existe como instrumento para conter a inflação, mas o contexto de que
essa mesma taxa trava o consumo das famílias e encarece o crédito para o
pequeno empreendedor muitas vezes é omitido nos editoriais financeiros. A
política monetária não opera no vácuo; ela possui consequências distributivas
severas que precisam ser discutidas com sobriedade, sem o rótulo fácil de
populismo.
Defensores
do mercado financeiro argumentam que qualquer crítica ao patamar dos juros é um
ataque direto à estabilidade econômica e à credibilidade do país. No entanto, é
racional e necessário questionar se o remédio aplicado não está sendo mais
amargo que a doença. Um Banco Central tecnicamente autônomo deve ser imune à
política partidária, mas não pode ser surdo à política econômica geral de um
governo legitimamente eleito, sob pena de criar um descompasso institucional
que prejudica a geração de empregos e o crescimento do PIB.
A autonomia
institucional é um avanço democrático importante para a previsibilidade do
mercado, mas ela exige, em contrapartida, uma transparência e uma prestação de
contas muito mais rigorosas perante a sociedade. O debate público deve migrar
da simples personalização das figuras públicas para uma discussão pedagógica
sobre quais interesses a atual estrutura de juros está protegendo e como
podemos conciliar estabilidade de preços com justiça social. Pensar dá trabalho
— e é justamente por isso que importa.




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