segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A FALÁCIA DO ESTADO AUSENTE E A REALIDADE GLOBAL

Países ricos investem pesado em proteção social.

Por que a rede de proteção social é o pilar das nações mais desenvolvidas do mundo e não um entrave ao crescimento

Antes da opinião, os fatos. Existe uma narrativa persistente, alimentada por setores da extrema direita, de que programas de transferência de renda como o Bolsa Família seriam uma anomalia brasileira e um entrave ao desenvolvimento econômico. O argumento central desse discurso defende que o Estado não deveria utilizar recursos com as famílias menos abastadas, alegando que países desenvolvidos prosperaram justamente por não possuírem tais políticas.

Vamos separar o que aconteceu do que estão dizendo que aconteceu: a proteção social não é um custo a ser cortado, mas um investimento no capital humano que sustenta as economias mais fortes do planeta. Aqui é onde a narrativa começa a escorregar. Ao contrário do que prega o senso comum distorcido, os países com os maiores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) possuem sistemas de bem-estar social extremamente robustos.

Na Dinamarca, por exemplo, o Estado oferece benefícios universais que superam em muito o escopo brasileiro. O Børne- og ungeydelse é uma assistência financeira paga a todas as famílias com filhos, onde o valor é escalonado conforme a necessidade e o número de crianças. Isso é no mínimo má-fé, é uma distorção estratégica, omitir que, em países de primeiro mundo, o Estado é o garantidor da dignidade desde o nascimento.

Uma outra informação que tem o seu contexto omitido é que na Dinamarca, a gestante tem direito a quatro semanas de licença remunerada antes do parto e o casal pode usufruir de até um ano de suporte financeiro estatal após o nascimento. Esse modelo não gera estagnação; pelo contrário, permite que a população mantenha um padrão de consumo estável e que a força de trabalho seja qualificada e saudável. Fato não tem ideologia, mas a manipulação quase sempre tem.

A ideia de que o Estado deve ignorar os pobres para crescer ignora a lógica econômica básica de que a circulação de renda na base da pirâmide é o que impulsiona o mercado interno. Países desenvolvidos são ricos porque protegem seu povo, e não apesar disso. Pensar dá trabalho — e é justamente por isso que importa desconstruir discursos que visam apenas a concentração de riqueza e o desmonte da cidadania.

Por: Henrique Alvarenga.
Jornalista, analista político e colunista.

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