| Países ricos investem pesado em proteção social. |
Antes da opinião, os fatos. Existe uma narrativa
persistente, alimentada por setores da extrema direita, de que programas de
transferência de renda como o Bolsa Família seriam uma anomalia brasileira e um
entrave ao desenvolvimento econômico. O argumento central desse discurso
defende que o Estado não deveria utilizar recursos com as famílias menos
abastadas, alegando que países desenvolvidos prosperaram justamente por não
possuírem tais políticas.
Vamos separar o que aconteceu do que estão dizendo que
aconteceu: a proteção social não é um custo a ser cortado, mas um investimento
no capital humano que sustenta as economias mais fortes do planeta. Aqui é onde
a narrativa começa a escorregar. Ao contrário do que prega o senso comum
distorcido, os países com os maiores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH)
possuem sistemas de bem-estar social extremamente robustos.
Na Dinamarca, por exemplo, o Estado oferece benefícios
universais que superam em muito o escopo brasileiro. O Børne- og ungeydelse é
uma assistência financeira paga a todas as famílias com filhos, onde o valor é
escalonado conforme a necessidade e o número de crianças. Isso é no mínimo má-fé,
é uma distorção estratégica, omitir que, em países de primeiro mundo, o Estado
é o garantidor da dignidade desde o nascimento.
Uma outra informação que tem o seu contexto omitido é
que na Dinamarca, a gestante tem direito a quatro semanas de licença remunerada
antes do parto e o casal pode usufruir de até um ano de suporte financeiro
estatal após o nascimento. Esse modelo não gera estagnação; pelo contrário,
permite que a população mantenha um padrão de consumo estável e que a força de
trabalho seja qualificada e saudável. Fato não tem ideologia, mas a manipulação
quase sempre tem.
A ideia de que o Estado deve ignorar os pobres para
crescer ignora a lógica econômica básica de que a circulação de renda na base
da pirâmide é o que impulsiona o mercado interno. Países desenvolvidos são
ricos porque protegem seu povo, e não apesar disso. Pensar dá trabalho — e é
justamente por isso que importa desconstruir discursos que visam apenas a
concentração de riqueza e o desmonte da cidadania.
Por: Henrique
Alvarenga.
Jornalista, analista político e colunista.




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