| O fascismo não está no Aurélio, está nas ruas de SC. |
É curioso notar como a simplificação grosseira se
tornou o refúgio dos que temem a complexidade do real. Ratinho, em seu afã de
pacificar o debate com um dicionário na mão, comete o erro clássico de quem
confunde definição léxica com fenômeno sociopolítico. O fascismo, caro
apresentador, não pede licença para constar no verbete antes de se manifestar
no asfalto. Ao tentar reduzir uma ideologia de morte a uma mera questão
semântica, o comunicador presta um serviço de desinformação que serve
perfeitamente àqueles que desejam operar nas sombras da normalização.
Enquanto a televisão aberta busca o entretenimento na
ignorância, o país assiste ao crescimento de células que não precisam de
dicionário para saber quem querem perseguir. O caso recente em Santa Catarina,
onde um indivíduo foi detido com o veículo ostentando simbologia nazista e
frases de ódio, é o sintoma purulento de uma ferida que nunca fechou. Não se
trata de um fato isolado ou da loucura de um 'lobo solitário', mas da
manifestação estética de uma ideia que foi incubada durante anos de retórica
bolsonarista.
O racismo, a homofobia e a xenofobia, antes
sussurrados em mesas de jantar, ganharam as ruas e os para-choques, alimentados
pela sensação de impunidade e pela validação de figuras públicas que tratam o
absurdo como 'liberdade de expressão'. É a gestação de um projeto autoritário
que utiliza a democracia para corroê-la por dentro, esperando o momento certo
para o bote. A institucionalização desse pensamento é ainda mais perigosa
quando desce do carro para o gabinete oficial.
A decisão do governo de Santa Catarina de proibir as
cotas raciais não é apenas uma medida administrativa; é uma declaração de
guerra à justiça social e à reparação histórica. Ao remover os mecanismos que
tentam equilibrar um jogo viciado, o Estado catarinense sinaliza que a
branquitude e o privilégio são os únicos valores a serem preservados. Esse é o fascismo
de terno e gravata, que não precisa gritar 'Heil' para excluir
sistematicamente a população negra e periférica dos espaços de poder. É o passo
decisivo para que a segregação se torne política de Estado sob o aplauso de uma
classe média que confunde meritocracia com herança.
Não podemos aceitar a normalização do horror sob a
desculpa da ignorância. O fascismo brasileiro tem sotaque, tem financiamento e,
infelizmente, tem audiência. Quando vozes influentes tentam dizer que o monstro
não existe porque não o acharam em uma pesquisa rápida no Google, elas estão
apenas ajudando a esconder o corpo. A história nos ensina que o silêncio e o
deboche são os adubos preferidos da tirania. Vigiar cada retrocesso, denunciar
cada símbolo de ódio e combater a canetada segregacionista é o que nos resta
para evitar que o passado se torne o nosso destino definitivo. O Brasil não é
para amadores, muito menos para quem finge não ver a serpente saindo do ovo.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista




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