segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O DICIONÁRIO DO RATINHO E A REALIDADE DAS RUAS

O fascismo não está no Aurélio, está nas ruas de SC.
A negação do fascismo em rede nacional ignora a ascensão de células neonazistas e o desmonte de políticas de reparação histórica.

É curioso notar como a simplificação grosseira se tornou o refúgio dos que temem a complexidade do real. Ratinho, em seu afã de pacificar o debate com um dicionário na mão, comete o erro clássico de quem confunde definição léxica com fenômeno sociopolítico. O fascismo, caro apresentador, não pede licença para constar no verbete antes de se manifestar no asfalto. Ao tentar reduzir uma ideologia de morte a uma mera questão semântica, o comunicador presta um serviço de desinformação que serve perfeitamente àqueles que desejam operar nas sombras da normalização.

Enquanto a televisão aberta busca o entretenimento na ignorância, o país assiste ao crescimento de células que não precisam de dicionário para saber quem querem perseguir. O caso recente em Santa Catarina, onde um indivíduo foi detido com o veículo ostentando simbologia nazista e frases de ódio, é o sintoma purulento de uma ferida que nunca fechou. Não se trata de um fato isolado ou da loucura de um 'lobo solitário', mas da manifestação estética de uma ideia que foi incubada durante anos de retórica bolsonarista.

O racismo, a homofobia e a xenofobia, antes sussurrados em mesas de jantar, ganharam as ruas e os para-choques, alimentados pela sensação de impunidade e pela validação de figuras públicas que tratam o absurdo como 'liberdade de expressão'. É a gestação de um projeto autoritário que utiliza a democracia para corroê-la por dentro, esperando o momento certo para o bote. A institucionalização desse pensamento é ainda mais perigosa quando desce do carro para o gabinete oficial.

A decisão do governo de Santa Catarina de proibir as cotas raciais não é apenas uma medida administrativa; é uma declaração de guerra à justiça social e à reparação histórica. Ao remover os mecanismos que tentam equilibrar um jogo viciado, o Estado catarinense sinaliza que a branquitude e o privilégio são os únicos valores a serem preservados. Esse é o fascismo de terno e gravata, que não precisa gritar 'Heil' para excluir sistematicamente a população negra e periférica dos espaços de poder. É o passo decisivo para que a segregação se torne política de Estado sob o aplauso de uma classe média que confunde meritocracia com herança.

Não podemos aceitar a normalização do horror sob a desculpa da ignorância. O fascismo brasileiro tem sotaque, tem financiamento e, infelizmente, tem audiência. Quando vozes influentes tentam dizer que o monstro não existe porque não o acharam em uma pesquisa rápida no Google, elas estão apenas ajudando a esconder o corpo. A história nos ensina que o silêncio e o deboche são os adubos preferidos da tirania. Vigiar cada retrocesso, denunciar cada símbolo de ódio e combater a canetada segregacionista é o que nos resta para evitar que o passado se torne o nosso destino definitivo. O Brasil não é para amadores, muito menos para quem finge não ver a serpente saindo do ovo.

Por: Altair Inácio

Jornalista e Colunista

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