| O agradecimento ácido de Wagner Moura |
A ironia fina de Wagner Moura ao
'agradecer' Jair Bolsonaro em entrevista internacional não é apenas um deboche
elegante, mas uma constatação sociológica amarga sobre o Brasil recente. Ao
expor como as atrocidades cometi
das e incentivadas pelo ex-mandatário serviram
de moldura para o desenvolvimento de seu novo trabalho, o longa 'Agente
Secreto', Moura escancara que o autoritarismo, embora destrutivo, acaba por
validar a urgência de narrativas que o combatem. É o artista que, diante das
cinzas, aponta para o incendiário e agradece pelo contraste cruel que permite
ver a luz da verdade e da justiça social com uma clareza que tempos de paz não proporcionariam.
O resgate histórico proposto por obras
desse calibre é um serviço de utilidade pública que os manuais escolares,
muitas vezes castrados por pressões políticas ou revisões ideológicas, não
conseguem cumprir com a mesma eficácia. Narrar o que não é contado nos
registros oficiais, dar rosto aos agentes ocultos da repressão e voz aos
silenciados pela história dos vencedores é o que mantém a democracia brasileira
em estado de alerta. O cinema brasileiro, ao mergulhar sem medo nas sombras do
nosso passado para explicar o presente, impede que o esquecimento planejado se
torne o solo fértil para que novas tiranias floresçam sob o disfarce da ordem e
do patriotismo de fachada.
No entanto, a produção dessa memória
coletiva não ocorre em um vácuo financeiro e, para o desespero dos arautos da
ignorância, não depende da famigerada Lei Rouanet, como muitos tentam alardear.
A direita bolsonarista, em seu delírio persecutório e falta de repertório,
transformou o incentivo fiscal em um palavrão onipresente, ignorando
deliberadamente que projetos de grande escala como os de Moura utilizam,
primordialmente, o Fundo Setorial do Audiovisual e robustas coproduções
internacionais. Mentir sobre a origem dos recursos é a tentativa desesperada de
deslegitimar uma arte que o Estado brasileiro tem a obrigação soberana de
fomentar, e não de perseguir como se fosse uma benevolência partidária.
O apoio estatal às artes não é
caridade, é uma estratégia de afirmação nacional praticada por qualquer
potência que se preze. Países que respeitam sua própria identidade entendem que
a cultura é o principal produto de exportação simbólica e a base da coesão
social.
Atacar o financiamento público é, em
última análise, uma tentativa de censura econômica: se não podem proibir o
filme, tentam asfixiar o cineasta. Mas Wagner Moura e o cinema de resistência
provam que, contra a truculência do obscurantismo e a fragilidade das fake
news, a inteligência, a coragem e o investimento público sério sempre terão
a última palavra.
Por:
Altair Inácio
Jornalista e Colunista




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