quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O AGRADECIMENTO DE WAGNER MOURA À BOLSONARO

O agradecimento ácido de Wagner Moura
A barbárie bolsonarista como laboratório criativo e a desconstrução do mito da Lei Rouanet no cinema de resistência.

A ironia fina de Wagner Moura ao 'agradecer' Jair Bolsonaro em entrevista internacional não é apenas um deboche elegante, mas uma constatação sociológica amarga sobre o Brasil recente. Ao expor como as atrocidades cometi
das e incentivadas pelo ex-mandatário serviram de moldura para o desenvolvimento de seu novo trabalho, o longa 'Agente Secreto', Moura escancara que o autoritarismo, embora destrutivo, acaba por validar a urgência de narrativas que o combatem. É o artista que, diante das cinzas, aponta para o incendiário e agradece pelo contraste cruel que permite ver a luz da verdade e da justiça social com uma clareza que tempos de paz não proporcionariam.

O resgate histórico proposto por obras desse calibre é um serviço de utilidade pública que os manuais escolares, muitas vezes castrados por pressões políticas ou revisões ideológicas, não conseguem cumprir com a mesma eficácia. Narrar o que não é contado nos registros oficiais, dar rosto aos agentes ocultos da repressão e voz aos silenciados pela história dos vencedores é o que mantém a democracia brasileira em estado de alerta. O cinema brasileiro, ao mergulhar sem medo nas sombras do nosso passado para explicar o presente, impede que o esquecimento planejado se torne o solo fértil para que novas tiranias floresçam sob o disfarce da ordem e do patriotismo de fachada.

No entanto, a produção dessa memória coletiva não ocorre em um vácuo financeiro e, para o desespero dos arautos da ignorância, não depende da famigerada Lei Rouanet, como muitos tentam alardear. A direita bolsonarista, em seu delírio persecutório e falta de repertório, transformou o incentivo fiscal em um palavrão onipresente, ignorando deliberadamente que projetos de grande escala como os de Moura utilizam, primordialmente, o Fundo Setorial do Audiovisual e robustas coproduções internacionais. Mentir sobre a origem dos recursos é a tentativa desesperada de deslegitimar uma arte que o Estado brasileiro tem a obrigação soberana de fomentar, e não de perseguir como se fosse uma benevolência partidária.

O apoio estatal às artes não é caridade, é uma estratégia de afirmação nacional praticada por qualquer potência que se preze. Países que respeitam sua própria identidade entendem que a cultura é o principal produto de exportação simbólica e a base da coesão social.

Atacar o financiamento público é, em última análise, uma tentativa de censura econômica: se não podem proibir o filme, tentam asfixiar o cineasta. Mas Wagner Moura e o cinema de resistência provam que, contra a truculência do obscurantismo e a fragilidade das fake news, a inteligência, a coragem e o investimento público sério sempre terão a última palavra.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista


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