| A democracia respira por aparelhos. |
Assistimos hoje a um espetáculo
deprimente de cinismo político que se recusa a sair de cartaz. A
extrema-direita brasileira, que outrora se escondia em porões nostálgicos da
ditadura, agora desfila à luz do dia, travestida de um liberalismo de
conveniência que só defende a liberdade para quem concorda com seus dogmas.
É curioso notar como o discurso da
família e dos bons costumes desmorona na primeira investigação oficial,
revelando um submundo de milícias digitais e desvios éticos que envergonhariam
até os políticos mais calejados da velha guarda. O método é tão velho quanto a
própria demagogia: criar um inimigo imaginário para desviar o foco da
incompetência administrativa e da ausência de projetos reais para o povo.
Enquanto o país tenta se reconstruir das
cinzas de uma gestão negacionista, as hordas bolsonaristas continuam a operar
em um universo paralelo, onde fatos são meras opiniões e o Judiciário é o
grande vilão por simplesmente fazer cumprir a Constituição. A ironia reside no
fato de que aqueles que mais gritam por liberdade são os primeiros a aplaudir o
cerceamento de direitos de minorias e a militarização da vida pública como
solução para dilemas sociais complexos. Não se enganem com a aparente calmaria
de alguns setores; o radicalismo apenas mudou de pele para tentar sobreviver ao
escrutínio das instituições.
A estratégia agora é a
institucionalização do caos, infiltrando-se em instâncias legislativas para
minar as bases da democracia por dentro. O jornalista atento percebe que o
financiamento desse movimento não vem do povo, mas de setores que lucram com a
desregulamentação e o desmonte do estado de bem-estar social, usando a pauta de
costumes como uma cortina de fumaça eficaz para esconder interesses puramente
mercadológicos.
Portanto, a luta pela justiça social e
pela preservação democrática exige mais do que indignação de rede social; exige
memória e coragem para confrontar o autoritarismo em todas as suas nuances. O
Brasil não pode se dar ao luxo de esquecer as tentativas de golpe e as investidas
contra o sistema eleitoral sob o pretexto de um patriotismo de vitrine que só
serve a um único líder. A democracia é um músculo que atrofia se não for
exercitado, e cabe a nós, cidadãos e profissionais da informação, garantir que
o sol da transparência continue a incomodar os que preferem as sombras do
autoritarismo.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista




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