Enganam-se redondamente aqueles que acreditaram que o
silêncio dos quartéis após o fatídico janeiro de 2023 significaria o ocaso da
extrema-direita em solo brasileiro. O que assistimos agora não é uma retirada
estratégica, mas uma sofisticada mutação biológica. O velho bolsonarismo,
aquele de chinelo de dedo e camisa da seleção desbotada, está sendo rapidamente
substituído por uma elite de influenciadores digitais que trocam a truculência
do cercadinho por estúdios de podcast de última geração. A tática mudou: agora
o autoritarismo é vendido como empreendedorismo e a desinformação é embalada em
pacotes de desenvolvimento pessoal. É a gourmetização do retrocesso, onde o
ódio ao diferente ganha verniz de meritocracia.
No entanto, o núcleo duro permanece o mesmo. As pautas
morais, que servem de cortina de fumaça para a manutenção de privilégios
econômicos, continuam sendo o combustível de uma militância que se recusa a
aceitar o jogo democrático. A reconfiguração passa pela criação de universos
paralelos de informação, onde as decisões do Judiciário são lidas como perseguição
religiosa e o Estado de Direito é visto como um obstáculo à liberdade —
liberdade esta que, ironicamente, só existe para quem reza pela cartilha do
movimento.
O sistema de freios e contrapesos tem sido testado ao
limite, e a resposta institucional, embora necessária, parece enxugar gelo
diante de uma máquina de propaganda que se alimenta do próprio caos que gera. A
justiça social, pilar que tanto defendemos, torna-se o alvo primordial dessa
nova face da direita. Ao demonizar o Estado e exaltar um individualismo
predatório, eles tentam desmantelar o que resta do contrato social brasileiro.
Não se trata mais apenas de uma disputa eleitoral, mas de uma batalha cultural
profunda onde a verdade é uma mercadoria barata. O desafio para o campo
democrático é imenso: é preciso furar a bolha dos algoritmos não com mais ódio,
mas com uma política que entregue resultados reais para quem sente a fome e a
desigualdade no dia a dia.
Por fim, a assinatura desta mutação é clara: a
extrema-direita brasileira aprendeu que não precisa de um golpe clássico se
puder corroer a democracia por dentro, transformando cada cidadão conectado em
um soldado involuntário de uma guerra cultural sem fim. Observar esse fenômeno
com a elegância de quem já viu muitas crises é necessário, mas a acidez se faz
urgente quando percebemos que a hipocrisia veste terno italiano e fala em
inglês corporativo para esconder o cheiro de mofo de ideologias ultrapassadas.
Por:
Altair Inácio
Jornalista
e Colunista




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