Uma análise sobre como a economia da atenção e os algoritmos de engajamento reconfiguram o debate público contemporâneo.
Vamos separar o que aconteceu do que estão dizendo que
aconteceu. No início da expansão da rede mundial de computadores, a promessa
era de uma ágora digital, um espaço de debate horizontal e democrático. No
entanto, o que observamos hoje é uma infraestrutura dominada por monopólios
transnacionais que utilizam a economia da atenção para fragmentar o tecido
social.
Toda narrativa pede uma pergunta básica: quem ganha
com isso? Ao priorizar o engajamento emocional em detrimento da veracidade
factual, as plataformas criam bolhas informacionais que dificultam o consenso
mínimo necessário para a manutenção do pacto democrático. O dado existe, mas o
contexto foi omitido quando se discute a suposta neutralidade dessas
ferramentas; algoritmos são escolhas políticas codificadas, desenhadas para
manter o usuário conectado pelo maior tempo possível, muitas vezes através do
conflito e da indignação.
Aqui é onde a narrativa começa a escorregar: o
discurso de defesa da liberdade de expressão absoluta muitas vezes serve de
escudo para a ausência total de responsabilidade editorial e civil sobre
conteúdos que atacam deliberadamente o Estado Democrático de Direito. Isso não
é mentira completa, é distorção estratégica: o argumento de que a regulação
cerceia a inovação ignora que toda infraestrutura essencial à vida pública —
como telecomunicações e energia — sempre foi regulada para proteger o interesse
coletivo.
A tecnologia deve servir à cidadania, e não o
contrário, exigindo transparência algorítmica e educação midiática como pilares
de uma nova governança. Pensar dá trabalho — e é justamente por isso que
importa. Fato não tem ideologia, mas a manipulação quase sempre tem. Somente
com instituições sólidas e uma vigilância racional sobre o poder das big techs
poderemos garantir que a inovação tecnológica não se torne o túmulo da
soberania popular.
Por: Henrique Alvarenga.
Jornalista, analista político e colunista.




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