Prefeitura gasta R$ 650 mil com show e ignora discurso de livre mercado
Por: Emerson Marinho
Analista de política e cotidiano popular
| Zezé Di Camargo e o Pix da prefeitura: a hipocrisia que ninguém quer ver. |
O que mais
chama a atenção nesse caso é a narrativa de quem está no poder. Gestões que se
vendem como defensoras ferrenhas da iniciativa privada e do Estado enxuto
parecem esquecer esses princípios na hora de assinar o contrato de um grande
artista. Se a crença é no mercado, por que não organizar um evento privado com
venda de ingressos? O risco do lucro ou do prejuízo deveria ser do empresário,
não do cofre público que deveria cuidar de saúde e educação.
Existe uma
hipocrisia latente quando comparamos essa situação com os ataques sistemáticos
à Lei Rouanet. Críticos costumam dizer que artistas vivem de 'teta pública',
ignorando que a lei de incentivo é um processo burocrático de renúncia fiscal
onde empresas privadas decidem onde investir. No caso de Pinhão, o dinheiro é
direto, vivo e retirado de áreas essenciais para pagar um cachê que sustenta o
luxo de quem já é milionário.
O silêncio
de parte da imprensa e dos influenciadores de direita é ensurdecedor. Caso o
artista em questão fosse ligado a pautas de esquerda, as redes sociais estariam
em chamas com denúncias de 'farra com dinheiro público'. No entanto, como o
sertanejo em questão flerta com o conservadorismo, o gasto de R$ 650 mil é
tratado como um investimento cultural necessário. É o famoso 'dois pesos e duas
medidas' que domina a polarização atual.
Essa prática
não é exclusividade do Paraná e reflete muito do que vemos nos bastidores da
política aqui no Maranhão e em São Luís. Prefeituras de cidades minúsculas, com
índices sociais alarmantes, preferem gastar fortunas em uma única noite de
festa para ganhar popularidade rápida. É a política do pão e circo em sua
versão mais moderna e digital, onde o story no Instagram vale mais que o
asfalto na porta de casa.
A moralidade
se torna um conceito elástico para esses gestores. Eles apontam o dedo para a
corrupção e para o gasto público ideológico, mas não hesitam em se locupletar
politicamente através de shows caríssimos. A população mais necessitada, que
sofre com a falta de infraestrutura básica, acaba pagando a conta de um
entretenimento que dura poucas horas, mas deixa um rombo duradouro nas contas
municipais.
Precisamos
discutir seriamente a criação de limites para gastos com entretenimento em
cidades de pequeno porte. Não se trata de ser contra a cultura, mas de ter
responsabilidade fiscal básica. Enquanto o discurso de 'menos Estado' for usado
apenas para cortar direitos do trabalhador e não para impedir que R$ 650 mil
voem em um único cachê, a política continuará sendo um jogo de aparências e
conveniências.
A solução
passa por uma fiscalização rigorosa dos tribunais de contas e uma mudança na
mentalidade do eleitor. É necessário entender que não existe show 'gratuito';
se você não pagou o ingresso na bilheteria, está pagando através do imposto no
feijão e na gasolina. A verdadeira moralidade na política não está no grito das
redes sociais, mas no respeito ao destino de cada centavo que pertence ao povo.




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