segunda-feira, 18 de maio de 2026

A CONTA SALGADA DE ZEZÉ DI CAMARGO EM PINHÃO: O DINHEIRO PÚBLICO NO PALCO

Prefeitura gasta R$ 650 mil com show e ignora discurso de livre mercado

Por: Emerson Marinho
Analista de política e cotidiano popular

Zezé Di Camargo e o Pix da prefeitura:
a hipocrisia que ninguém quer ver.
A cidade de Pinhão, no Paraná, virou o centro de uma polêmica que escancara a contradição entre o discurso e a prática na política brasileira. Com pouco mais de 30 mil habitantes, a prefeitura local decidiu desembolsar nada menos que R$ 650 mil para contratar o cantor Zezé Di Camargo. O valor, astronômico para a realidade de um município de pequeno porte, levanta um debate urgente sobre as prioridades de investimento do dinheiro que sai do bolso do contribuinte paranaense.

O que mais chama a atenção nesse caso é a narrativa de quem está no poder. Gestões que se vendem como defensoras ferrenhas da iniciativa privada e do Estado enxuto parecem esquecer esses princípios na hora de assinar o contrato de um grande artista. Se a crença é no mercado, por que não organizar um evento privado com venda de ingressos? O risco do lucro ou do prejuízo deveria ser do empresário, não do cofre público que deveria cuidar de saúde e educação.

Existe uma hipocrisia latente quando comparamos essa situação com os ataques sistemáticos à Lei Rouanet. Críticos costumam dizer que artistas vivem de 'teta pública', ignorando que a lei de incentivo é um processo burocrático de renúncia fiscal onde empresas privadas decidem onde investir. No caso de Pinhão, o dinheiro é direto, vivo e retirado de áreas essenciais para pagar um cachê que sustenta o luxo de quem já é milionário.

O silêncio de parte da imprensa e dos influenciadores de direita é ensurdecedor. Caso o artista em questão fosse ligado a pautas de esquerda, as redes sociais estariam em chamas com denúncias de 'farra com dinheiro público'. No entanto, como o sertanejo em questão flerta com o conservadorismo, o gasto de R$ 650 mil é tratado como um investimento cultural necessário. É o famoso 'dois pesos e duas medidas' que domina a polarização atual.

Essa prática não é exclusividade do Paraná e reflete muito do que vemos nos bastidores da política aqui no Maranhão e em São Luís. Prefeituras de cidades minúsculas, com índices sociais alarmantes, preferem gastar fortunas em uma única noite de festa para ganhar popularidade rápida. É a política do pão e circo em sua versão mais moderna e digital, onde o story no Instagram vale mais que o asfalto na porta de casa.

A moralidade se torna um conceito elástico para esses gestores. Eles apontam o dedo para a corrupção e para o gasto público ideológico, mas não hesitam em se locupletar politicamente através de shows caríssimos. A população mais necessitada, que sofre com a falta de infraestrutura básica, acaba pagando a conta de um entretenimento que dura poucas horas, mas deixa um rombo duradouro nas contas municipais.

Precisamos discutir seriamente a criação de limites para gastos com entretenimento em cidades de pequeno porte. Não se trata de ser contra a cultura, mas de ter responsabilidade fiscal básica. Enquanto o discurso de 'menos Estado' for usado apenas para cortar direitos do trabalhador e não para impedir que R$ 650 mil voem em um único cachê, a política continuará sendo um jogo de aparências e conveniências.

A solução passa por uma fiscalização rigorosa dos tribunais de contas e uma mudança na mentalidade do eleitor. É necessário entender que não existe show 'gratuito'; se você não pagou o ingresso na bilheteria, está pagando através do imposto no feijão e na gasolina. A verdadeira moralidade na política não está no grito das redes sociais, mas no respeito ao destino de cada centavo que pertence ao povo.

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