quarta-feira, 6 de maio de 2026

O BILIONÁRIO BALCÃO DE NEGÓCIOS DOS SERTANEJOS

Enquanto demonizam a Lei Rouanet, expoentes do gênero e políticos de direita operam um esquema de emendas e cachês astronômicos longe dos olhos do controle público.

Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica

A Política do Pão e circo com chapéu de boiadeiro
O espetáculo da hipocrisia brasileira ganhou novos acordes e, curiosamente, todos eles soam como um berrante desafinado. Enquanto setores da direita vociferam contra programas sociais e demonizam a Lei Rouanet como se fosse o epicentro da corrupção nacional, os bastidores do poder revelam uma realidade bem mais lucrativa — e menos transparente. O chamado "dossiê sertanejo" expõe um esquema bilionário onde a moralidade cristã e o discurso de austeridade dão lugar a um balcão de negócios regado a dinheiro público, emendas parlamentares e uma absoluta falta de licitação.

O caso de Gusttavo Lima é emblemático. Ver-se envolvido em movimentações de R$ 11,4 milhões via J&F, sob o olhar atento do COAF, é o tipo de "sucesso" que o marketing oficial não costuma postar no Instagram. Quando o dinheiro de impostos circula por empresas de parlamentares para chegar ao palco, a fronteira entre o entretenimento e o financiamento político desaparece. Não se trata de arte, mas de uma engrenagem de manutenção de poder que utiliza o carisma do ídolo para lubrificar as engrenagens eleitorais de prefeitos e deputados.

Enquanto isso, Wesley Safadão desfila por pequenos municípios que mal conseguem manter suas unidades de saúde básicas, mas que, num passe de mágica orçamentária, encontram R$ 900 mil ou R$ 1 milhão para uma única noite de festa. De Malhador a Tucano, a conta não fecha para o cidadão, mas sorri para os empresários do show business. No Ceará, o volume de R$ 52 milhões em contratos sem licitação mostra que o "Estado mínimo" defendido por esses grupos só se aplica quando o destinatário é o pobre; para o entretenimento das elites políticas locais, o cofre é um poço sem fundo.

A ironia atinge seu ápice com figuras como Zé Neto e Leonardo. O primeiro tornou-se o rosto da cruzada contra a Lei Rouanet, esquecendo-se convenientemente dos R$ 400 mil oriundos dos cofres públicos que engordaram seu cachê. Já Leonardo parece ter descoberto o "Eldorado" das emendas Pix: R$ 1,9 milhão injetados em cidades mineiras sem a necessidade de prestar contas ou explicar por que aquele recurso não foi para a educação. É a institucionalização do descaso sob o pretexto da alegria popular, onde o "pix" político substitui o planejamento governamental.

O que vemos é a construção de uma narrativa perversa. Ataca-se o fomento cultural transparente para que a farra das emendas ocorra nas sombras. Políticos de direita instrumentalizam a fé e o patriotismo no palanque, enquanto assinam cheques vultosos para artistas que validam seus discursos. No fim do dia, quem paga a conta é o contribuinte que, entre um refrão e outro, continua sem médico no posto, mas com a ilusão de que a "mamata" acabou. No Brasil do agro-pop-político, a música é apenas o ruído de fundo de um grande e silencioso assalto aos cofres públicos.

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