Enquanto demonizam a Lei Rouanet, expoentes do gênero e políticos de direita operam um esquema de emendas e cachês astronômicos longe dos olhos do controle público.
Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica
| A Política do Pão e circo com chapéu de boiadeiro |
O caso de
Gusttavo Lima é emblemático. Ver-se envolvido em movimentações de R$ 11,4
milhões via J&F, sob o olhar atento do COAF, é o tipo de
"sucesso" que o marketing oficial não costuma postar no Instagram.
Quando o dinheiro de impostos circula por empresas de parlamentares para chegar
ao palco, a fronteira entre o entretenimento e o financiamento político
desaparece. Não se trata de arte, mas de uma engrenagem de manutenção de poder
que utiliza o carisma do ídolo para lubrificar as engrenagens eleitorais de
prefeitos e deputados.
Enquanto
isso, Wesley Safadão desfila por pequenos municípios que mal conseguem manter
suas unidades de saúde básicas, mas que, num passe de mágica orçamentária,
encontram R$ 900 mil ou R$ 1 milhão para uma única noite de festa. De Malhador
a Tucano, a conta não fecha para o cidadão, mas sorri para os empresários do
show business. No Ceará, o volume de R$ 52 milhões em contratos sem licitação
mostra que o "Estado mínimo" defendido por esses grupos só se aplica
quando o destinatário é o pobre; para o entretenimento das elites políticas
locais, o cofre é um poço sem fundo.
A ironia atinge seu ápice com figuras como Zé Neto e Leonardo. O primeiro tornou-se o rosto da cruzada contra a Lei Rouanet, esquecendo-se convenientemente dos R$ 400 mil oriundos dos cofres públicos que engordaram seu cachê. Já Leonardo parece ter descoberto o "Eldorado" das emendas Pix: R$ 1,9 milhão injetados em cidades mineiras sem a necessidade de prestar contas ou explicar por que aquele recurso não foi para a educação. É a institucionalização do descaso sob o pretexto da alegria popular, onde o "pix" político substitui o planejamento governamental.
O que vemos é a construção de uma narrativa perversa. Ataca-se o fomento cultural transparente para que a farra das emendas ocorra nas sombras. Políticos de direita instrumentalizam a fé e o patriotismo no palanque, enquanto assinam cheques vultosos para artistas que validam seus discursos. No fim do dia, quem paga a conta é o contribuinte que, entre um refrão e outro, continua sem médico no posto, mas com a ilusão de que a "mamata" acabou. No Brasil do agro-pop-político, a música é apenas o ruído de fundo de um grande e silencioso assalto aos cofres públicos.




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