A politização de um alerta sanitário da Anvisa sobre bactérias em produtos de limpeza mostra que o Brasil ainda não se curou da cegueira coletiva que custou vidas na pandemia.
Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais
| O alerta sobre o detergente Ypê é ciência, não perseguição. |
Não podemos
esquecer que esse roteiro de descrédito institucional já nos custou mais de 700
mil vidas. O Brasil foi um dos países que, proporcionalmente, mais perdeu
cidadãos para a pandemia porque o governo da época e seus seguidores decidiram
que a ciência era uma opinião descartável. Agora, vemos o absurdo de pessoas
declarando que vão continuar usando produtos contaminados como forma de
'protesto'. O fanatismo político chegou a tal ponto que a própria sobrevivência
é colocada em segundo plano para sustentar uma narrativa de vitimização.
O risco aqui
não é abstrato. Estamos falando de superbactérias resistentes a antibióticos
que já causam estragos na Europa e podem encontrar no Brasil um terreno fértil
devido à negligência deliberada. Bebês, idosos, pessoas com HIV e qualquer
cidadão com a imunidade baixa estão na linha de frente desse perigo. Ignorar um
alerta de contaminação não é um ato de coragem ou resistência política; é um
ato de irresponsabilidade criminosa que sobrecarrega o nosso Sistema Único de
Saúde (SUS).
Para piorar
o cenário, a cultura do espetáculo nas redes sociais impulsiona comportamentos
suicidas. O caso recente de um homem que foi parar na UTI após ingerir
detergente para 'lacrar' em um vídeo é o sintoma mais agudo de uma sociedade
doente pela desinformação. Enquanto influenciadores brincam com a vida alheia,
a realidade bate à porta com infecções graves e mortes evitáveis. Não há
ideologia que sobreviva a uma septicemia.
A marca Ypê, cujos donos apoiaram abertamente o ex-presidente, deve ser fiscalizada como qualquer outra. O rigor técnico não escolhe CNPJ nem preferência partidária. Tentar blindar uma empresa de normas sanitárias sob o pretexto de perseguição é um atentado contra o direito do consumidor e a segurança nacional. O mercado não pode estar acima da vida, e o lucro não pode ser protegido por milícias digitais que ignoram o perigo microscópico.
Precisamos retomar a racionalidade e o respeito absoluto aos órgãos reguladores. A solução passa por uma punição severa para quem dissemina notícias falsas sobre saúde pública e um fortalecimento das campanhas educativas que cheguem à base da pirâmide social. Até quando permitiremos que a disputa política sabote o direito fundamental de não sermos envenenados dentro de nossas próprias casas?




0 comentários:
Postar um comentário