A constitucionalização de 1% da receita para a assistência social é o mínimo para um país que ainda castiga os seus mais pobres.
Por:
Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais
| O CRAS e o CREAS precisam de orçamento garantido por lei. |
Para quem
vive a realidade de São Luís, sabe o que significa um CRAS ou um CREAS sem
estrutura. São as portas de entrada para quem perdeu tudo, para a mulher vítima
de violência que busca abrigo e para a família que não sabe se terá o que
jantar. Durante muito tempo, esses serviços foram tratados como o 'patinho
feio' do orçamento, dependendo da boa vontade de governantes de plantão. Com a
PEC, o financiamento passa a ser obrigatório e permanente, blindando o
atendimento básico de cortes ideológicos ou negligências administrativas.
É revoltante
pensar que essa proposta tramita desde 2017. Quantas famílias foram empurradas
para a extrema pobreza enquanto os parlamentares discutiam se o social 'cabia
no teto'? Enquanto o orçamento secreto jorrava bilhões para obras de fachada e
interesses eleitoreiros, a assistência social operava no limite do colapso. A
aprovação agora, em 2026, é um alívio, mas carrega o peso do atraso de uma
elite política que muitas vezes prefere ignorar o Brasil que passa fome.
A luta agora se desloca para o Senado Federal. Não podemos aceitar que o texto sofra modificações que desidratem esse percentual ou que criem amarras burocráticas para o repasse aos municípios. A assistência social é feita na ponta, no bairro, na comunidade. Os trabalhadores do SUAS, que enfrentam a linha de frente da desigualdade com salários defasados e estruturas precárias, precisam dessa segurança para garantir que o Estado chegue onde o mercado nunca chegará.
A solução real para a desigualdade brasileira exige mais do que apenas aprovar números; exige que esse 1% seja fiscalizado com rigor pela sociedade civil e que a gestão desses recursos seja transparente. O próximo passo é cobrar que cada centavo chegue aos territórios mais vulneráveis, transformando a assistência de política de governo em uma política de Estado inegociável. O Senado tem o dever moral de votar isso com urgência: a fome e o desamparo não podem aguardar o calendário eleitoral.




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