segunda-feira, 18 de maio de 2026

ONDE O ESTADO FALHA, AS MULHERES PAGAM COM A VIDA

Enquanto a retórica punitivista domina o debate político, o feminicídio avança e a rede de proteção em São Luís segue pedindo socorro.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais

Justiça para uma é segurança para todas.
Não dá mais para aceitar que o debate sobre segurança pública no Brasil se resuma a armas na mão e repressão policial nas periferias. Enquanto os gabinetes climatizados em Brasília e os palanques em São Luís discutem estatísticas frias, a realidade nas ruas e dentro dos lares é de um abandono sistemático. Para as mulheres, a segurança pública não é uma abstração; é a diferença entre a vida e a morte. O que vemos hoje é uma falha de projeto que ignora a raiz da violência de gênero e trata o corpo feminino como território de descarte.

Em São Luís, a situação das Delegacias da Mulher e da rede de acolhimento é o retrato fiel dessa negligência. É inadmissível que, em pleno 2026, ainda lutemos para que todas as unidades funcionem 24 horas por dia, com equipes treinadas e humanizadas. A mulher que sofre agressão na madrugada de domingo não pode esperar o horário comercial de segunda-feira para ser salva. A demora no atendimento e a falta de uma rede integrada de proteção são cúmplices diretas de cada feminicídio que estampa os jornais.

A conta da desigualdade social pesa ainda mais forte nesse cenário. São as mulheres negras e pobres, moradoras das áreas mais vulneráveis da nossa capital e do interior do estado, que enfrentam as maiores barreiras para acessar a justiça. Quando o Estado se retira e deixa o vácuo da proteção social, ele entrega essas mulheres à própria sorte. Segurança pública de verdade se faz com assistência social, com autonomia econômica para que a vítima possa romper o ciclo da violência e com educação que desconstrua o machismo estrutural desde a base.

O discurso do 'bandido bom é bandido morto' não resolve a violência doméstica. O agressor, muitas vezes, está dentro de casa, dormindo no quarto ao lado. O punitivismo vazio ataca o sintoma, mas não cura a doença da impunidade que permite que medidas protetivas sejam apenas pedaços de papel sem eficácia prática. Precisamos de um sistema que monitore, que fiscalize e que ofereça suporte real, não apenas de promessas de campanha que desaparecem após o período eleitoral.

Para mudar essa realidade sangrenta, a solução exige coragem política e orçamento carimbado. É urgente a expansão das Patrulhas Maria da Penha para todos os municípios maranhenses e a criação de centros de reabilitação para agressores, aliada a um suporte financeiro imediato para as vítimas que não têm para onde ir. O questionamento que fica para os nossos governantes é direto: quantas vidas de mulheres ainda serão sacrificadas no altar da omissão estatal antes que a segurança feminina seja prioridade real e não apenas peça de propaganda?

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