Como o discurso da 'família e bons costumes' se dissolve diante da realidade dos fatos e da conveniência do poder
Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica
Assistimos, com uma mistura de tédio e espanto, ao desmoronamento coreografado daquilo que convencionou-se chamar de 'ala ideológica' do bolsonarismo. O movimento, que ascendeu ao poder sob o manto de uma suposta regeneração moral, hoje tropeça nos próprios cadarços, enredado em uma teia de contradições que faria qualquer roteirista de sátira política sentir-se um amador. A moralidade, no dicionário dessa direita reacionária, sempre foi um conceito elástico, capaz de abraçar o arbítrio e a intolerância, desde que devidamente embalados em versículos bíblicos convenientemente selecionados.
A hipocrisia
não é apenas um efeito colateral, mas o combustível principal dessa engrenagem.
Enquanto as redes sociais borbulhavam com o discurso da preservação da 'família
tradicional', os bastidores do poder revelavam uma promiscuidade entre o
público e o privado que beira o obsceno. O bolsonarismo não inventou a
corrupção ou o fisiologismo, mas conferiu a eles uma aura de santidade civil
que permitiu a seus seguidores ignorar o óbvio em nome de uma guerra cultural
imaginária contra inimigos invisíveis.
O que vemos
agora, com o cerco judicial se fechando e as máscaras de 'patriotas' caindo uma
a uma, é o desespero de quem percebe que o palco está ficando vazio. A
narrativa da perseguição política, embora ainda ecoe nas bolhas digitais, perde
força diante do peso das evidências materiais. É irônico notar como aqueles que
clamavam por 'lei e ordem' são os mesmos que agora buscam brechas jurídicas
criativas para justificar ataques às instituições democráticas e o flerte
explícito com a ruptura institucional.
No Maranhão,
como no resto do país, o reflexo dessa crise é nítido. Lideranças locais que
juraram fidelidade eterna ao capitão agora ensaiam passos de recuo, buscando
uma sombra menos incandescente para sobreviverem politicamente. A
instrumentalização da fé, que por tanto tempo serviu como o grande equalizador
de votos, começa a enfrentar a resistência de quem percebe que o evangelho foi
sequestrado para servir a um projeto de poder terreno, autoritário e
profundamente excludente.
O legado do
bolsonarismo será estudado não apenas como um fenômeno político, mas como uma
patologia social de desinformação em massa. A reconstrução do debate público
exige que desarmemos as armadilhas retóricas da hipocrisia moral e encaremos a
política como ela é: uma disputa de projetos para o bem comum, e não um
tribunal inquisitório de costumes alheios. O teatro acabou, mas os custos da
peça ainda serão pagos por muitas gerações.




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