segunda-feira, 18 de maio de 2026

O TEATRO DA MORALIDADE E AS RUÍNAS DO BOLSONARISMO

Como o discurso da 'família e bons costumes' se dissolve diante da realidade dos fatos e da conveniência do poder

Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica

Assistimos, com uma mistura de tédio e espanto, ao desmoronamento coreografado daquilo que convencionou-se chamar de 'ala ideológica' do bolsonarismo. O movimento, que ascendeu ao poder sob o manto de uma suposta regeneração moral, hoje tropeça nos próprios cadarços, enredado em uma teia de contradições que faria qualquer roteirista de sátira política sentir-se um amador. A moralidade, no dicionário dessa direita reacionária, sempre foi um conceito elástico, capaz de abraçar o arbítrio e a intolerância, desde que devidamente embalados em versículos bíblicos convenientemente selecionados.

A hipocrisia não é apenas um efeito colateral, mas o combustível principal dessa engrenagem. Enquanto as redes sociais borbulhavam com o discurso da preservação da 'família tradicional', os bastidores do poder revelavam uma promiscuidade entre o público e o privado que beira o obsceno. O bolsonarismo não inventou a corrupção ou o fisiologismo, mas conferiu a eles uma aura de santidade civil que permitiu a seus seguidores ignorar o óbvio em nome de uma guerra cultural imaginária contra inimigos invisíveis.

O que vemos agora, com o cerco judicial se fechando e as máscaras de 'patriotas' caindo uma a uma, é o desespero de quem percebe que o palco está ficando vazio. A narrativa da perseguição política, embora ainda ecoe nas bolhas digitais, perde força diante do peso das evidências materiais. É irônico notar como aqueles que clamavam por 'lei e ordem' são os mesmos que agora buscam brechas jurídicas criativas para justificar ataques às instituições democráticas e o flerte explícito com a ruptura institucional.

No Maranhão, como no resto do país, o reflexo dessa crise é nítido. Lideranças locais que juraram fidelidade eterna ao capitão agora ensaiam passos de recuo, buscando uma sombra menos incandescente para sobreviverem politicamente. A instrumentalização da fé, que por tanto tempo serviu como o grande equalizador de votos, começa a enfrentar a resistência de quem percebe que o evangelho foi sequestrado para servir a um projeto de poder terreno, autoritário e profundamente excludente.

O legado do bolsonarismo será estudado não apenas como um fenômeno político, mas como uma patologia social de desinformação em massa. A reconstrução do debate público exige que desarmemos as armadilhas retóricas da hipocrisia moral e encaremos a política como ela é: uma disputa de projetos para o bem comum, e não um tribunal inquisitório de costumes alheios. O teatro acabou, mas os custos da peça ainda serão pagos por muitas gerações.

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