segunda-feira, 4 de maio de 2026

A SÃO LUÍS QUE O CARTÃO-POSTAL ESCONDE

Enquanto o marketing oficial brilha para o turista, as periferias da capital maranhense afundam na lama e no descaso crônico do poder público.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais

As periferias pedem socorro e dignidade já!
São Luís é uma cidade de contrastes que gritam e ferem a dignidade humana. Enquanto a gestão municipal investe milhões em áreas turísticas e bairros de classe média alta para manter uma aparência de modernidade, a realidade nos bairros mais distantes é de um abandono que beira o criminoso. O asfalto de qualidade parece um luxo destinado a poucos, enquanto o saneamento básico permanece como uma promessa de campanha que nunca desembarca nas comunidades onde o povo realmente vive, sofre e trabalha.

A chegada do período de chuvas apenas escancara o que todos já sabemos: a infraestrutura urbana da nossa capital é vergonhosamente seletiva. Nas periferias, a chuva não traz apenas o alívio do calor, mas o medo concreto de perder os poucos móveis conquistados com suor, a impossibilidade de sair para o trabalho e o risco constante de doenças hídricas. É inadmissível que, em pleno século XXI, famílias ainda convivam com esgoto a céu aberto na porta de casa enquanto o orçamento público é drenado para obras de fachada que não resolvem o problema estrutural da drenagem.

Essa situação não é uma fatalidade geográfica, é uma decisão política deliberada. Quando o poder público prioriza a maquiagem urbana em detrimento das obras de base nas zonas rurais e nos aglomerados urbanos populares, o gestor está enviando uma mensagem clara sobre quem ele considera cidadão e quem ele enxerga como invisível. A desigualdade em São Luís tem endereço certo, e ela é alimentada pela falta de coragem política para enfrentar os problemas históricos de planejamento urbano que privilegiam o centro em detrimento da borda.

O impacto social desse descaso é devastador e multidimensional. A falta de acessibilidade isola idosos e pessoas com deficiência dentro de suas próprias casas. O transporte coletivo, já precário, desiste de entrar em ruas tomadas por crateras, impedindo o jovem de chegar à escola ou ao mercado de trabalho. A infraestrutura precária é, em última análise, uma barreira estatal ao desenvolvimento econômico de quem mais precisa de oportunidade. O Estado, que deveria reduzir desigualdades, acaba por aprofundá-las através do abandono sistêmico.

Não podemos mais aceitar que o direito à cidade seja um privilégio de quem mora em bairros nobres. A solução passa obrigatoriamente pela criação de um Plano de Metas de Infraestrutura para as Periferias, com um orçamento carimbado que não possa ser desviado para festas ou publicidade. Precisamos de conselhos populares de obras que fiscalizem cada centavo investido. O questionamento que fica para a Prefeitura de São Luís é um só: quando é que o povo da periferia terá o mesmo valor, no orçamento, que o metro quadrado dos bairros de elite?

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