A derrocada da impunidade e a tentativa desesperada de transformar processos criminais em narrativa de perseguição política.
Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica
| O grito de perseguição é o último refúgio da culpa. |
É fascinante notar a ironia poética que o tempo impõe aos discursos de 'lei e ordem'. Aqueles que, durante anos, ocuparam as redes sociais e os palanques pregando o endurecimento penal e a vigilância constante, agora descobrem, com um misto de pavor e indignação, que o rigor da lei também se aplica a quem habita os palácios. O bolsonarismo, em sua fase de desdobramento judicial, vive hoje o seu momento mais agudo de dissonância cognitiva: o discurso da impunidade, antes arma contra adversários, tornou-se o espelho de sua própria derrocada.
A estratégia
de comunicação é tão previsível quanto desgastada. Diante do avanço das
investigações sobre tramas golpistas e o desvio de bens públicos, a ordem do
dia é a vitimização. Tenta-se construir a imagem de um martírio político para
manter acesa a chama de uma base que se alimenta de indignação seletiva. No
entanto, o que se vê nos autos não são opiniões políticas, mas sim provas
materiais, depoimentos e uma cadeia de evidências que o barulho das redes
sociais não consegue silenciar com a mesma facilidade de outrora.
No Maranhão,
o reflexo dessa crise é sentido nos movimentos discretos de antigos aliados
que, com o pragmatismo típico da nossa política, começam a ensaiar um
distanciamento higiênico. O bolsonarismo local, que outrora era um ativo
eleitoral barulhento, hoje prefere o silêncio estratégico ou a nota oficial
protocolar. Ninguém quer ser o último a apagar a luz de um projeto que, sob a
mira da Justiça, parece ter perdido o freio e o rumo, deixando apenas o rastro
de uma retórica que não resiste ao primeiro interrogatório.
A instrumentalização da fé, outra face perversa desse movimento, também começa a encontrar limites. O uso de templos como comitês e da bíblia como escudo jurídico gera um desgaste que nem mesmo a narrativa do 'bem contra o mal' consegue estancar por completo. A Justiça, ao agir dentro das quatro linhas que o próprio ex-presidente tanto citava e pouco respeitava, reafirma que a democracia não admite soberanos acima das instituições, por mais fervorosos que sejam seus seguidores.
O que assistimos agora não é o fim de uma ideologia, pois o ressentimento social que a gerou permanece latente, mas é, sem dúvida, o fim de um ciclo de impunidade ostensiva. Se o bolsonarismo sobreviverá como força eleitoral, é uma questão para o futuro; o presente, contudo, pertence aos tribunais. E ali, longe dos algoritmos e das fake news, o que conta é a frieza dos fatos, algo que o 'mito' e sua corte parecem ter desaprendido a enfrentar.




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