terça-feira, 12 de maio de 2026

O DIA EM MEMÓRIA DAS VÍTIMAS DA COVID: 700 MIL MOTIVOS PARA NUNCA ESQUECER

Sancionada lei que cria o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19, um grito por justiça e valorização do SUS contra o negacionismo.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais

Memória é nossa maior arma contra o descaso.

Finalmente, o Brasil oficializa o luto que muitos tentaram nos roubar. Sancionar o 12 de março como o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19 não é apenas uma formalidade burocrática; é um ato de resistência contra o apagamento histórico. Estamos falando de mais de 700 mil brasileiros que não são apenas estatísticas, mas pais, mães, filhos e amigos que foram arrancados de nós em uma tragédia que poderia ter sido muito menor se o negacionismo não tivesse ocupado a cadeira da presidência no passado.

Para avançarmos, o caminho é a cobrança incessante pelo fortalecimento orçamentário definitivo do SUS e pela educação científica nas escolas. Precisamos de conselhos de saúde ativos e de uma população consciente de que votar em quem despreza a ciência é assinar um atestado de perigo coletivo. Qual lição você tirou dessa dor para garantir que a irresponsabilidade nunca mais governe nossas vidas?

A escolha da data, em homenagem a Rosana Aparecida Urbano, técnica de enfermagem, reconhecida como a primeira vítima oficial da Covid-19 no Brasil, diz muito sobre quem segurou o piano nessa crise. Foram os trabalhadores do SUS, muitas vezes sem equipamentos básicos e sob ataques covardes de quem deveria protegê-los, que salvaram vidas. Essa lei é, acima de tudo, um reconhecimento de que a ciência e a saúde pública são os únicos caminhos viáveis para uma nação que se pretenda soberana e justa.

Mas não nos enganemos: a memória dói porque ela nos lembra da indiferença criminosa. Enquanto milhares sufocavam em busca de oxigênio, autoridades faziam piadas e atrasavam a compra de vacinas por interesses escusos. É preciso que esse dia sirva para que as novas gerações saibam exatamente quem priorizou o lucro e a ideologia em detrimento da vida humana. Esquecer é permitir que a irresponsabilidade volte a governar sob novos disfarces, e isso o povo brasileiro não pode aceitar.

Em cidades como São Luís e tantas outras periferias do Brasil, o impacto foi ainda mais brutal. A desigualdade social escancarou quem tinha o privilégio de se isolar e quem era obrigado a se expor ao vírus nos ônibus lotados para não passar fome. O SUS, mesmo sob ataque, foi o que impediu um massacre ainda maior. Por isso, a criação do Memorial da Pandemia precisa ser um espelho para o país: para que a dor se transforme em vigilância constante sobre os atos de nossos governantes.

Agora, o desafio é transformar o luto em luta política real. Não basta uma data no calendário se não houver investimento contínuo na saúde e se os responsáveis por mortes evitáveis continuarem impunes em seus cargos ou em suas vidas públicas. O compromisso com a memória exige que a saúde pública seja tratada como prioridade máxima de Estado, e não como um gasto a ser cortado por políticas neoliberais insensíveis que ignoram a realidade das favelas e dos bairros populares.


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