Enquanto os números de violência contra a mulher disparam, o Estado falha em oferecer proteção real e políticas de acolhimento que cheguem às periferias de São Luís e ao interior.
Por:
Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais
| O Maranhão não pode mais aceitar o extermínio de suas mulheres. |
É
inadmissível que, em pleno 2026, ainda existam municípios maranhenses sem uma
Delegacia da Mulher ou uma rede mínima de acolhimento. A segurança pública não
pode ser resumida apenas a viaturas circulando; ela precisa ser uma rede
integrada que envolva assistência social, autonomia econômica e, acima de tudo,
uma resposta rápida do Judiciário. Quando uma medida protetiva demora a ser
expedida ou não possui fiscalização efetiva, o Estado está, na prática, assinando
a sentença de morte daquela cidadã. A periferia de São Luís grita por socorro,
mas o eco só chega aos ouvidos de quem decide o orçamento quando a tragédia já
aconteceu.
Precisamos
falar sobre o abismo de classe que existe na proteção das mulheres maranhenses.
Enquanto as que possuem recursos conseguem acessar redes privadas e advogados,
as mulheres pobres, pretas e periféricas ficam à mercê de um sistema que as
desencoraja a denunciar. O medo de ser revitimizada na delegacia ou de não ter
para onde ir com os filhos faz com que muitas permaneçam sob o teto do
agressor. Onde está o investimento massivo em Casas da Mulher Brasileira e
centros de referência em todo o estado? O orçamento público revela as
prioridades de um governo, e a vida das mulheres parece estar sempre em segundo
plano na hora de cortar gastos.
A cultura do machismo institucionalizado também é um entrave. Não basta criar leis se quem as aplica não possui formação em perspectiva de gênero. Casos de violência são minimizados, depoimentos são desacreditados e a culpa é frequentemente jogada sobre a vítima. Essa estrutura arcaica é o que mantém o agressor impune e confiante. A segurança pública precisa entender que o combate ao feminicídio exige uma mudança de mentalidade em toda a corporação, desde o policial que atende a ocorrência até o juiz que analisa o caso. Sem isso, as leis serão apenas letras mortas em papéis guardados em gavetas.
A solução passa obrigatoriamente pela descentralização imediata das políticas de proteção e pelo fortalecimento da autonomia financeira das vítimas. É urgente a criação de um fundo estadual específico para o amparo a mulheres em situação de vulnerabilidade, garantindo que elas tenham condições de sair de casa sem passar fome. Além disso, a patrulha Maria da Penha deve ser expandida para todos os 217 municípios do Maranhão, com monitoramento rígido e integração de dados. O Estado precisa parar de reagir a cadáveres e começar a proteger vidas. Quantas mais precisarão morrer para que a segurança pública seja, de fato, para todas?




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