sexta-feira, 8 de maio de 2026

A INEFICIÊNCIA DA SEGURANÇA PÚBLICA NO COMBATE AO FEMINICÍDIO NO MARANHÃO

Enquanto os números de violência contra a mulher disparam, o Estado falha em oferecer proteção real e políticas de acolhimento que cheguem às periferias de São Luís e ao interior.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais

O Maranhão não pode mais aceitar
o extermínio de suas mulheres.
Não dá mais para tratar a violência de gênero no Maranhão como se fosse uma fatalidade inevitável ou um problema restrito ao âmbito doméstico. O que estamos assistindo, semana após semana, é um verdadeiro extermínio de mulheres, alimentado por uma estrutura de segurança pública que, embora ostente números de apreensões e operações pomposas, falha miseravelmente na prevenção e na proteção básica. A realidade em São Luís e nas cidades do interior é cruel: a mulher que decide romper o ciclo da violência encontra um sistema burocrático, frio e, muitas vezes, desaparelhado para garantir que ela não vire estatística no dia seguinte.

É inadmissível que, em pleno 2026, ainda existam municípios maranhenses sem uma Delegacia da Mulher ou uma rede mínima de acolhimento. A segurança pública não pode ser resumida apenas a viaturas circulando; ela precisa ser uma rede integrada que envolva assistência social, autonomia econômica e, acima de tudo, uma resposta rápida do Judiciário. Quando uma medida protetiva demora a ser expedida ou não possui fiscalização efetiva, o Estado está, na prática, assinando a sentença de morte daquela cidadã. A periferia de São Luís grita por socorro, mas o eco só chega aos ouvidos de quem decide o orçamento quando a tragédia já aconteceu.

Precisamos falar sobre o abismo de classe que existe na proteção das mulheres maranhenses. Enquanto as que possuem recursos conseguem acessar redes privadas e advogados, as mulheres pobres, pretas e periféricas ficam à mercê de um sistema que as desencoraja a denunciar. O medo de ser revitimizada na delegacia ou de não ter para onde ir com os filhos faz com que muitas permaneçam sob o teto do agressor. Onde está o investimento massivo em Casas da Mulher Brasileira e centros de referência em todo o estado? O orçamento público revela as prioridades de um governo, e a vida das mulheres parece estar sempre em segundo plano na hora de cortar gastos.

A cultura do machismo institucionalizado também é um entrave. Não basta criar leis se quem as aplica não possui formação em perspectiva de gênero. Casos de violência são minimizados, depoimentos são desacreditados e a culpa é frequentemente jogada sobre a vítima. Essa estrutura arcaica é o que mantém o agressor impune e confiante. A segurança pública precisa entender que o combate ao feminicídio exige uma mudança de mentalidade em toda a corporação, desde o policial que atende a ocorrência até o juiz que analisa o caso. Sem isso, as leis serão apenas letras mortas em papéis guardados em gavetas.

A solução passa obrigatoriamente pela descentralização imediata das políticas de proteção e pelo fortalecimento da autonomia financeira das vítimas. É urgente a criação de um fundo estadual específico para o amparo a mulheres em situação de vulnerabilidade, garantindo que elas tenham condições de sair de casa sem passar fome. Além disso, a patrulha Maria da Penha deve ser expandida para todos os 217 municípios do Maranhão, com monitoramento rígido e integração de dados. O Estado precisa parar de reagir a cadáveres e começar a proteger vidas. Quantas mais precisarão morrer para que a segurança pública seja, de fato, para todas?

0 comentários:

Postar um comentário

Buscar no Site