Até quando o dinheiro e a farda serão usados como salvo-conduto para a barbárie contra trabalhadores?
Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais
| Patroa bate em doméstica e se gaba de 'amizade' com policial. |
O que causa
ainda mais revolta é a escancarada promiscuidade entre o poder econômico e
parte da segurança pública. Os áudios da empresária são um tapa na cara da
sociedade: ela se gabou de não ter sido presa em flagrante porque um dos
policiais era seu 'amigo'. Essa 'sorte' mencionada por ela tem nome: privilégio
de classe. Enquanto a periferia é silenciada pelo braço forte do Estado, quem
tem sobrenome e dinheiro usa a farda como escudo para cometer crimes hediondos.
O afastamento dos quatro policiais militares é o mínimo, mas precisamos
questionar quantos outros casos são abafados por essa rede de amizades
influentes.
Carolina não
é estreante no banco dos réus. Com mais de dez processos nas costas e uma
condenação anterior pelo mesmo 'modus operandi' — acusar babás de roubo para
humilhá-las —, ela é a personificação da impunidade que alimenta o monstro da
desigualdade social. Ela acreditava que pagar 750 reais por mês lhe dava o
direito de decidir quem vive e quem morre. O depoimento da vítima, que tentou proteger
a barriga dos ataques, é o retrato de um país que odeia seus pobres,
especialmente as mulheres que sustentam este país com o suor de seus braços em
condições degradantes.
Agora, a defesa tenta emplacar a narrativa de 'não julgamento antecipado'. Ora, os áudios da própria acusada confessando que a jovem 'não era para ter saído viva' não deixam margem para dúvidas. Não podemos aceitar que o fato de Carolina também estar grávida seja usado como manobra para evitar o regime fechado. O sistema prisional brasileiro está lotado de mulheres pretas e pobres que dão à luz algemadas ou criam seus filhos em celas insalubres sem nenhum benefício. Se a lei é para todos, que o rigor seja aplicado com a mesma força que ela usou contra aquela jovem de 19 anos.
Para que casos como este deixem de ser rotina, é urgente que o Ministério Público e o Ministério do Trabalho criem protocolos de fiscalização mais rígidos para o trabalho doméstico, retirando-o da invisibilidade das paredes residenciais. Além disso, a punição para os policiais que prevaricam em nome de amizades influentes deve ser a expulsão imediata da corporação. A justiça só será plena quando a vida de uma doméstica grávida valer mais do que o anel de ouro de uma empresária arrogante. Precisamos de uma reforma no sistema de denúncias que garanta proteção real à vítima desde o primeiro momento, impedindo que o agressor tenha tempo de fugir ou destruir provas.




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