No mercado das sombras digitais, a verdade é apenas um detalhe incômodo para quem lucra com a desinformação e o ódio.
Por:
Altair Inácio
Colunista de análise política crítica
| Manipular o povo pelo celular é o novo chicote
do coronelismo digital. |
Historicamente, a propaganda política sempre flertou com a distorção, mas o que testemunhamos hoje é uma mutação industrial. Não se trata mais apenas de omitir fatos, mas de construir realidades paralelas, sob medida para alimentar o ódio e a polarização. No Brasil, essa engenharia encontrou terreno fértil em uma classe média ávida por vilões e em grupos que transformaram o celular em um tribunal inquisitório digital, onde a sentença é dada antes mesmo da defesa.
O
bolsonarismo, mestre nessa coreografia do absurdo, percebeu cedo que a dúvida é
mais poderosa que a certeza. Ao bombardear o cidadão com versões conflitantes
da realidade, eles não buscam convencer pelo argumento, mas exaurir pela
confusão. O objetivo final da manipulação digital não é fazer você acreditar
piamente na mentira, mas fazer com que você não acredite em mais nada — nem na
ciência, nem nas instituições, nem nos seus próprios olhos.
O que pouco
se discute nos salões acarpetados de Brasília, porém, são as cifras por trás
dessa "indústria do clique". A desinformação é um negócio altamente
rentável. Das milícias digitais que operam em escritórios discretos aos
algoritmos das big techs que priorizam o engajamento pelo conflito, há uma rede
de cumplicidade que prefere o lucro do caos à estabilidade da democracia. A
verdade, convenhamos, não gera tanto tráfego quanto uma teoria da conspiração
bem temperada sobre o fim da família cristã.
No Maranhão, sentimos o reflexo dessa tática de forma visceral. A política local, muitas vezes marcada pelo coronelismo de outrora, agora veste terno digital. O ataque sistemático a adversários e a fabricação de crises inexistentes em blogs de aluguel tornaram-se ferramentas padrão. É o velho poder usando novas armas para manter as mesmas estruturas de dominação, agora escondidas atrás de perfis fakes e disparos em massa que mimetizam a voz do povo.
Combater esse câncer digital exige mais do que simples checagem de fatos; exige uma alfabetização política que o sistema atual não tem interesse em promover. Enquanto a regulação das plataformas for tratada hipocritamente como "censura" por aqueles que mais se beneficiam do lixo digital, continuaremos reféns de uma narrativa sequestrada. No fim, a democracia morre não no silêncio, mas no ruído ensurdecedor de um milhão de mentiras compartilhadas com a velocidade de um clique.




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