Como o movimento sobrevive às investigações ao transformar o cerco judicial em combustível para uma narrativa de perseguição eterna.
Por:
Altair Inácio
Colunista de análise política crítica
| Entre joias e golpes, a narrativa do martírio é a última fronteira do mito. |
A crise
institucional brasileira, portanto, mudou de endereço, mas manteve o mesmo CPF.
Se antes o conflito emanava do Palácio do Planalto contra a Praça dos Três
Poderes, agora ele se manifesta na tentativa sistemática de deslegitimar o
Judiciário. A estratégia é clara: enquanto o cerco jurídico se aperta em torno
das joias, dos certificados de vacina e das tramas golpistas, a militância é
alimentada com a ideia de que a democracia brasileira é um simulacro controlado
por 'iluminados' de toga. É a política feita através do espelho, onde o culpado
se veste de vítima para manter o rebanho unido.
Nos
bastidores de Brasília, o que se comenta é o desconforto da direita
tradicional, aquela que ainda guarda algum apreço pelo verniz institucional.
Essa ala observa, entre o pavor e o oportunismo, o bolsonarismo raiz sequestrar
o debate público. Não há espaço para propostas econômicas ou discussões sobre
políticas sociais quando o centro da pauta é a sobrevivência jurídica de um
clã. A política brasileira tornou-se refém de um inventário criminal que dita o
ritmo das votações no Congresso e a temperatura das redes sociais.
Olhando para o Maranhão e outros estados, percebemos o reflexo dessa dinâmica. As lideranças locais que ascenderam na onda de 2018 agora tateiam o terreno com cautela. Alguns tentam um divórcio silencioso, buscando o pragmatismo da máquina pública, enquanto outros mergulham ainda mais fundo no discurso radical, entendendo que, para o seu eleitorado, a moderação é vista como traição. O bolsonarismo criou um ecossistema onde o radicalismo é o único sinal de fidelidade aceito, dificultando qualquer tentativa de pacificação institucional genuína.
Por fim, é preciso entender que as crises institucionais alimentadas por esse movimento não são acidentes de percurso, mas o projeto em si. O objetivo nunca foi governar dentro das quatro linhas, mas questionar a existência das próprias linhas. Mesmo que as figuras centrais venham a enfrentar a inelegibilidade ou o cárcere, o vírus da desconfiança absoluta nas instituições já foi inoculado. O desafio da República não é apenas punir os excessos do passado, mas encontrar o antídoto para uma política que se sustenta unicamente na negação da verdade e na corrosão do pacto democrático.




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