No teatro do poder, a narrativa deixou de ser uma ferramenta para se tornar o próprio espetáculo, enquanto a realidade agoniza nos bastidores.
Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica
| Onde a verdade se perde no marketing político. |
O
bolsonarismo não inventou a manipulação, mas a elevou ao status de método de
governo e sobrevivência digital. Ao institucionalizar a pós-verdade, criou uma
legião de seguidores que não buscam informações, mas confirmações para seus
próprios preconceitos. O problema é que, uma vez quebrada a barreira da
realidade compartilhada, a reconstrução do diálogo nacional torna-se uma tarefa
hercúlea. O que vemos hoje é um campo de batalha onde as armas são memes e a
munição é o ressentimento social acumulado.
Por outro
lado, o atual governo parece ainda preso a uma lógica de comunicação analógica
em um mundo hiperconectado e fragmentado. Tentar responder a uma avalanche de
fake news com notas oficiais ou coletivas de imprensa tradicionais é como
tentar apagar um incêndio com um conta-gotas. A narrativa da oposição é veloz,
ruidosa e emocional; a resposta institucional, muitas vezes, é lenta, técnica e
árida. Nessa assimetria de linguagens, quem perde é a clareza democrática.
A ironia
maior reside no fato de que os maiores moralistas do palanque digital são,
frequentemente, os mais pragmáticos e flexíveis nos bastidores. O discurso da
ética serve apenas como uma maquiagem conveniente para esconder alianças
espúrias e interesses paroquiais. No Maranhão, por exemplo, acompanhamos de
perto como as dinastias políticas se reinventam, trocando de cor e de discurso
com a mesma facilidade com que se troca de camisa, sempre sob o verniz de uma
'nova política' que de nova só tem o layout das redes sociais.
Enquanto a política for tratada como um jogo de espelhos, onde o reflexo importa mais que o objeto, o cidadão continuará a ser o figurante de um roteiro escrito para beneficiar poucos. É preciso resgatar a política como espaço de mediação de conflitos reais, e não como um reality show permanente. Afinal, quando as luzes do espetáculo se apagam e a narrativa se dissolve, o que sobra é a realidade crua de um país que ainda precisa de soluções, e não apenas de cliques.




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