Mesmo com avanço histórico na ocupação de mulheres negras, a diferença salarial de 21% revela que o mercado de trabalho ainda opera sob a lógica da exploração de gênero.
Jornalista e defensora de direitos sociais
Mais mulheres trabalhando, mas o bolso continua
vazio.
Os dados do Ministério do Trabalho e Emprego não mentem, mas revoltam. Ver que a ocupação feminina cresceu 11%, com um salto impressionante de 29% entre as mulheres negras, deveria ser motivo de comemoração plena. No entanto, a realidade dá um tapa na cara: a diferença salarial entre homens e mulheres não só persiste como deu um leve suspiro para cima, chegando a 21,3%. É a prova de que o mercado de trabalho brasileiro, especialmente o grande empresariado, ainda enxerga o corpo feminino como mão de obra barata para sustentar lucros astronômicos.
É preciso
dar nome aos bois. Essa diferença de rendimento não é um erro de cálculo ou uma
'consequência natural' do mercado. É uma escolha política e corporativa.
Enquanto as empresas ostentam selos de diversidade e discursos bonitos sobre
inclusão nas redes sociais, o contracheque no final do mês mostra que o
trabalho da mulher ainda é desvalorizado sistematicamente. Quando falamos de
mulheres negras, que foram as que mais ocuparam novos postos, a injustiça é
ainda mais profunda, pois elas estão na base de uma pirâmide que insiste em não
se mover.
O relatório
de transparência salarial, fruto da Lei nº 14.611/2023, é um avanço necessário,
mas a lei sozinha não faz milagre se não houver uma fiscalização de ferro.
Precisamos questionar: por que estados como Espírito Santo e Rio de Janeiro
mantêm níveis tão vergonhosos de desigualdade? O que os grandes empresários
dessas regiões estão fazendo, além de resistir à transparência? A transparência
é o primeiro passo para o constrangimento público dessas corporações que lucram
com o suor sub-remunerado das trabalhadoras.
Imagine o
impacto se esses R$ 95,5 bilhões que faltam na massa salarial feminina
estivessem nas mãos das mulheres. Isso não é apenas sobre 'justiça social'
abstrata; é sobre dinheiro que circularia na economia, nas periferias, nas
escolas e no consumo das famílias. A resistência em pagar salários iguais para
funções iguais é um projeto de manutenção de poder que mantém a mulher em uma
posição de vulnerabilidade econômica, dificultando, inclusive, sua saída de
ciclos de violência doméstica e dependência.
A solução
não virá da 'bondade' dos patrões, mas da pressão popular e do rigor do Estado.
É urgente que o Ministério do Trabalho intensifique as multas e que os
sindicatos coloquem a equiparação salarial no centro de todas as negociações
coletivas. O caminho prático é o boicote público e a punição severa para
empresas que descumprirem a lei de transparência. Não aceitaremos mais o
discurso de 'custos adicionais' para justificar o preconceito. Salário igual
para trabalho igual é o mínimo de dignidade que exigimos.




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