terça-feira, 28 de abril de 2026

A CONTA DA DESIGUALDADE QUE O BRASIL INSISTE EM NÃO FECHAR

Mesmo com avanço histórico na ocupação de mulheres negras, a diferença salarial de 21% revela que o mercado de trabalho ainda opera sob a lógica da exploração de gênero.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais

Mais mulheres trabalhando, mas o bolso continua vazio.

Os dados do Ministério do Trabalho e Emprego não mentem, mas revoltam. Ver que a ocupação feminina cresceu 11%, com um salto impressionante de 29% entre as mulheres negras, deveria ser motivo de comemoração plena. No entanto, a realidade dá um tapa na cara: a diferença salarial entre homens e mulheres não só persiste como deu um leve suspiro para cima, chegando a 21,3%. É a prova de que o mercado de trabalho brasileiro, especialmente o grande empresariado, ainda enxerga o corpo feminino como mão de obra barata para sustentar lucros astronômicos.

É preciso dar nome aos bois. Essa diferença de rendimento não é um erro de cálculo ou uma 'consequência natural' do mercado. É uma escolha política e corporativa. Enquanto as empresas ostentam selos de diversidade e discursos bonitos sobre inclusão nas redes sociais, o contracheque no final do mês mostra que o trabalho da mulher ainda é desvalorizado sistematicamente. Quando falamos de mulheres negras, que foram as que mais ocuparam novos postos, a injustiça é ainda mais profunda, pois elas estão na base de uma pirâmide que insiste em não se mover.

O relatório de transparência salarial, fruto da Lei nº 14.611/2023, é um avanço necessário, mas a lei sozinha não faz milagre se não houver uma fiscalização de ferro. Precisamos questionar: por que estados como Espírito Santo e Rio de Janeiro mantêm níveis tão vergonhosos de desigualdade? O que os grandes empresários dessas regiões estão fazendo, além de resistir à transparência? A transparência é o primeiro passo para o constrangimento público dessas corporações que lucram com o suor sub-remunerado das trabalhadoras.

Imagine o impacto se esses R$ 95,5 bilhões que faltam na massa salarial feminina estivessem nas mãos das mulheres. Isso não é apenas sobre 'justiça social' abstrata; é sobre dinheiro que circularia na economia, nas periferias, nas escolas e no consumo das famílias. A resistência em pagar salários iguais para funções iguais é um projeto de manutenção de poder que mantém a mulher em uma posição de vulnerabilidade econômica, dificultando, inclusive, sua saída de ciclos de violência doméstica e dependência.

A solução não virá da 'bondade' dos patrões, mas da pressão popular e do rigor do Estado. É urgente que o Ministério do Trabalho intensifique as multas e que os sindicatos coloquem a equiparação salarial no centro de todas as negociações coletivas. O caminho prático é o boicote público e a punição severa para empresas que descumprirem a lei de transparência. Não aceitaremos mais o discurso de 'custos adicionais' para justificar o preconceito. Salário igual para trabalho igual é o mínimo de dignidade que exigimos.

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