Brandão abre as portas dos Leões, mas Esmênia caminha sobre ovos enquanto o fantasma eleitoral de Braide senta-se à mesa.
Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica
Na política
maranhense, o café servido nos palácios raramente tem apenas o sabor do grão;
ele vem sempre acompanhado de uma dose generosa de estratégia e um retrogosto
de sobrevivência. O recente aceno de Carlos Brandão à prefeita Esmênia Miranda
é o tipo de movimento que, na superfície, ostenta o verniz da 'republicanidade'
e da harmonia administrativa. No entanto, para quem conhece os bastidores da
Ilha, fica claro que o governador não está apenas oferecendo parcerias; ele
está jogando uma rede fina sobre o Palácio La Ravardière.O encontro entre Brandão e Esmênia agita
os
bastidores da capital.
Brandão,
mestre na arte da paciência e da cooptação silenciosa, utiliza o discurso do
tratamento igualitário entre capital e interior para desarmar críticas. Ao
dizer que não haverá 'condicionamentos políticos', ele coloca Esmênia em uma
sinuca de bico: se aceitar com entusiasmo, flerta com a traição ao seu mentor,
Eduardo Braide; se recusar, assume o papel de gestora intransigente que prefere
o isolamento ao benefício da população. É a velha tática de oferecer o abraço
para, no mínimo, sentir o batimento cardíaco do adversário.
Do outro
lado da mesa, Esmênia Miranda move-se com a cautela de quem atravessa um campo
minado. Herdeira direta do capital político de Braide — o principal antagonista
do grupo governista para o próximo pleito estadual — a prefeita sabe que cada
sorriso em foto oficial é um projétil potencial para a oposição interna. Sua
cautela não é apenas administrativa, é uma blindagem necessária para manter a
coesão de um grupo que pretende transformar a prefeitura em trampolim para o
Palácio dos Leões em 2026.
A ironia
dessa coreografia é que o 'respeito' e a 'cortesia' citados por interlocutores
são, muitas vezes, as ferramentas mais afiadas do isolamento político. Brandão
tenta esvaziar o discurso de perseguição que Braide tão bem utilizou em
campanhas passadas. Ao abrir as portas, o governador retira do adversário o
papel de vítima, forçando a prefeitura a dividir os louros de qualquer obra que
venha a sair do papel na capital.
Enquanto o
xadrez se desenrola, a população de São Luís assiste ao espetáculo com a
esperança de que, entre um xeque e outro, os problemas reais de infraestrutura
e saúde não sejam meros peões sacrificados. A política, quando bem jogada,
deveria servir ao cidadão, mas no Maranhão das oligarquias e dos novos grupos
de poder, ela costuma servir primeiro aos projetos de poder. Que o diálogo seja
proveitoso, mas que não esqueçamos: em ano pré-eleitoral, até o 'bom dia' tem
segundas intenções.




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