Enquanto o governo patina na regulação e a grande mídia se cala diante de patrocínios milionários, o endividamento por apostas online torna-se a nova face da desigualdade social no país.
Por:
Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política
| Apostas online já pesam mais no bolso do
brasileiro que juros e crédito. |
A gravidade
do cenário transborda para as necessidades mais básicas do ser humano. Relatos
de líderes do setor varejista, como o CEO da rede Assaí, apontam que o consumo de
alimentos está sendo diretamente sacrificado. Estima-se que os gastos com
apostas poderiam representar assustadores 35% de todo o alimento consumido no
Brasil. Quando o trabalhador deixa de comprar o arroz e o feijão para alimentar
o algoritmo de um 'cassino de bolso', a política pública falhou miseravelmente.
A segurança alimentar, que deveria ser prioridade absoluta, está sendo rifada
em prol de lucros que sequer permanecem no país.
Essa
tragédia social não aconteceu por acaso. Ela é fruto de uma herança maldita do
governo anterior, que abriu as fronteiras para essa exploração sem estabelecer
mecanismos de controle eficazes. Hoje, com 40 milhões de brasileiros utilizando
esses serviços e quase 20% deles admitindo que deixam de pagar contas básicas
para jogar, fica claro que o 'sonho' da ascensão econômica rápida é, na
verdade, uma bola de neve de desespero. O smartphone, que deveria ser
ferramenta de inclusão, tornou-se a porta de entrada para um vício que corrói
lares sob a chancela de influenciadores irresponsáveis que lucram com a perda
alheia.
É preciso
apontar o dedo para a cumplicidade de quem deveria informar. Grande parte da
imprensa nacional, hoje financiada por quantias vultosas de publicidade dessas
plataformas, hesita em denunciar o esquema predatório com o rigor necessário. O
silêncio é comprado com cotas de patrocínio que mascaram o absurdo. Enquanto
programas de TV e portais de notícias estampam logos de casas de apostas, as
famílias periféricas afundam em dívidas impagáveis. A ética jornalística não
pode ser vendida em troca de anúncios de 'odds' e bônus de boas-vindas.
O governo
atual precisa de coragem para estancar essa sangria de forma urgente. Não basta
tributar; é preciso restringir, educar e, acima de tudo, proteger os mais
necessitados. A regulação que está em curso deve ser implacável com a
publicidade agressiva e com o uso de cartões de programas sociais para apostas.
O Estado não pode ser sócio da miséria alheia sob a justificativa de
arrecadação. Se a justiça social é o norte deste país, o combate ao vício das
'bets' deve ser tratado como uma questão de saúde pública e soberania econômica
das famílias brasileiras.




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