Enquanto o Congresso e o Governo medem forças sobre o rito da proposta, milhões de trabalhadores brasileiros seguem sem tempo para viver.
Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais
| Brasília jogando xadrez com o cansaço do povo. |
Falar em
'impactos econômicos' sem colocar na balança o custo social da escala 6x1 é de
um cinismo atroz. O trabalhador não é uma peça de engrenagem descartável. Em
São Luís e em tantas outras capitais, vemos pais e mães de família que saem de
casa antes do sol nascer e voltam apenas para dormir, sem tempo para ver os
filhos crescerem ou para o simples direito ao lazer. O lucro das grandes
empresas não pode continuar sendo subsidiado pela exaustão física e emocional
da nossa classe trabalhadora.
O impasse
entre o Governo Federal, que sugere um projeto de lei, e a Câmara, que insiste
na PEC, parece mais um jogo de xadrez político do que uma busca por soluções. A
PEC exige um quórum mais alto e uma tramitação mais lenta, o que levanta a
suspeita: será que querem realmente mudar a vida do povo ou apenas ganhar tempo
para que a pressão das ruas esfrie? A classe política precisa entender que o
povo está atento e não aceitará que essa pauta seja engavetada em nome de
acordos de bastidores.
A desculpa da 'transição setorial' é o novo mantra para manter tudo como está. Setores como a indústria e o comércio sempre alegam prejuízo quando se fala em direitos, mas nunca mencionam os recordes de produtividade e os lucros acumulados às custas de jornadas desumanas. A verdade é que a escala 6x1 é uma herança de um modelo de exploração que já não cabe mais em uma sociedade que se diz moderna e justa. É preciso coragem para enfrentar o lobby empresarial e priorizar a vida.
A solução passa obrigatoriamente por uma reforma que garanta a redução da jornada sem redução salarial, acompanhada de políticas de desoneração para pequenos empreendedores que realmente precisem de apoio na transição. Mas, acima de tudo, a solução exige que o trabalhador ocupe o centro do debate. Não haverá justiça social enquanto o descanso for tratado como privilégio e não como direito. Brasília vai servir ao povo ou continuará sendo o escritório de luxo dos grandes empresários? A resposta precisa vir agora, com a aprovação imediata de uma jornada que permita ao brasileiro viver, e não apenas sobreviver.




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