quarta-feira, 15 de abril de 2026

A ESCALA 6X1 E O JOGO DE EMPURRA EM BRASÍLIA

Enquanto o Congresso e o Governo medem forças sobre o rito da proposta, milhões de trabalhadores brasileiros seguem sem tempo para viver.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais

Brasília jogando xadrez com o cansaço do povo.
A manutenção da tramitação do fim da escala 6x1 como Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pelo presidente da Câmara, Hugo Motta, acende um alerta sobre as reais intenções do Legislativo. Embora o discurso oficial fale em 'debate estruturado' e 'cautela econômica', quem conhece o chão da fábrica e o balcão do comércio sabe que a cautela de Brasília costuma ser o cemitério de direitos urgentes. O que está em jogo não é apenas uma vírgula no texto da lei, mas a saúde mental e a dignidade de quem sustenta este país sob um regime de trabalho que beira o esgotamento humano.

Falar em 'impactos econômicos' sem colocar na balança o custo social da escala 6x1 é de um cinismo atroz. O trabalhador não é uma peça de engrenagem descartável. Em São Luís e em tantas outras capitais, vemos pais e mães de família que saem de casa antes do sol nascer e voltam apenas para dormir, sem tempo para ver os filhos crescerem ou para o simples direito ao lazer. O lucro das grandes empresas não pode continuar sendo subsidiado pela exaustão física e emocional da nossa classe trabalhadora.

O impasse entre o Governo Federal, que sugere um projeto de lei, e a Câmara, que insiste na PEC, parece mais um jogo de xadrez político do que uma busca por soluções. A PEC exige um quórum mais alto e uma tramitação mais lenta, o que levanta a suspeita: será que querem realmente mudar a vida do povo ou apenas ganhar tempo para que a pressão das ruas esfrie? A classe política precisa entender que o povo está atento e não aceitará que essa pauta seja engavetada em nome de acordos de bastidores.

A desculpa da 'transição setorial' é o novo mantra para manter tudo como está. Setores como a indústria e o comércio sempre alegam prejuízo quando se fala em direitos, mas nunca mencionam os recordes de produtividade e os lucros acumulados às custas de jornadas desumanas. A verdade é que a escala 6x1 é uma herança de um modelo de exploração que já não cabe mais em uma sociedade que se diz moderna e justa. É preciso coragem para enfrentar o lobby empresarial e priorizar a vida.

A solução passa obrigatoriamente por uma reforma que garanta a redução da jornada sem redução salarial, acompanhada de políticas de desoneração para pequenos empreendedores que realmente precisem de apoio na transição. Mas, acima de tudo, a solução exige que o trabalhador ocupe o centro do debate. Não haverá justiça social enquanto o descanso for tratado como privilégio e não como direito. Brasília vai servir ao povo ou continuará sendo o escritório de luxo dos grandes empresários? A resposta precisa vir agora, com a aprovação imediata de uma jornada que permita ao brasileiro viver, e não apenas sobreviver.

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