quinta-feira, 9 de abril de 2026

O PREÇO DA GUERRA NO PRATO DO BRASILEIRO

Enquanto o governo corre para conter a alta dos combustíveis com manobras fiscais, a periferia de São Luís e do Brasil sente o peso da inflação que não espera pelo decreto.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais

Até quando o combustível vai ditar o preço do nosso prato?

Mais uma vez, o cenário internacional dita o ritmo da fome no Brasil. O conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos, a milhares de quilômetros de distância, chega sem pedir licença às bombas de combustível e, consequentemente, às prateleiras dos supermercados. O pacote de medidas anunciado pelo governo federal para conter a alta do diesel e do gás de cozinha é uma tentativa desesperada de evitar um colapso social, mas precisamos dar nome aos bois: estamos enxugando gelo enquanto o sistema tributário continua protegendo quem mais tem.

A subvenção de R$ 1,20 para o diesel importado e o auxílio para o biodiesel são necessários para não parar o país, mas quem garante que esse desconto chegará integralmente ao consumidor final e não ficará retido nas margens de lucro das distribuidoras? Em cidades como São Luís, onde o transporte público já é precário e caro, qualquer centavo de variação no combustível é desculpa para o empresariado pressionar por novos aumentos de tarifa, castigando justamente o trabalhador que depende do ônibus para sobreviver.

Causa indignação ver que, no mesmo pacote, o setor aéreo recebe linhas de crédito e isenção de impostos para o querosene de aviação. É a velha política de socializar as perdas: enquanto o povo luta para comprar um botijão de gás, o Estado garante que as empresas aéreas não tenham seus lucros arranhados. A prioridade deveria ser clara e absoluta: a segurança alimentar e a mobilidade urbana da massa, não o conforto de quem viaja a negócios ou turismo enquanto a crise aperta o cerco sobre os mais vulneráveis.

As medidas de compensação, como o aumento do imposto sobre o cigarro, são o caminho mais fácil, porém o menos corajoso. Utilizar as receitas extraordinárias do petróleo é o mínimo que se espera, já que o recurso é da União, mas por que ainda não tocamos na ferida da distribuição de lucros e dividendos bilionários da Petrobras para acionistas privados? Se o petróleo é nosso, o lucro gerado pela crise também deveria ser integralmente revertido em um fundo de estabilização permanente que protegesse o povo de choques externos.

Não podemos aceitar que a solução para uma crise de combustíveis seja sempre um remendo fiscal de curto prazo que depende de 'arrecadação extraordinária'. A inflação dos alimentos, impulsionada pelo frete, não espera dois meses de subvenção passar. É preciso uma reforma tributária progressiva de verdade, que pare de taxar o consumo e comece a taxar o topo da pirâmide financeira, garantindo que o Estado tenha fôlego para intervir sem precisar mendigar compensação em vício alheio ou lucro incerto.

A solução definitiva passa pela criação de um Fundo de Estabilização de Preços robusto, financiado pela taxação de grandes lucros do setor petrolífero, aliado a uma política de preços nacionalista que desvincule o custo interno do barril das variações especulativas do mercado internacional. Só assim deixaremos de ser reféns de guerras que não são nossas.

0 comentários:

Postar um comentário

Buscar no Site