segunda-feira, 13 de abril de 2026

A HIPOCRISIA DE QUEM LEGISLA CONTRA A VIDA ALHEIA PARA PROTEGER A PRÓPRIA CONVENIÊNCIA

O caso do deputado Guto Zacarias revela como o discurso moralista no Brasil é uma arma de controle contra os pobres, enquanto a elite compra silêncio em clínicas de luxo.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais

O caso Zacarias é a cara da hipocrisia brasileira.

A política brasileira assiste a mais um capítulo daquela hipocrisia que já conhecemos de cor, mas que nunca deixa de nos causar indignação profunda. O deputado Guto Zacarias, um dos rostos do MBL que se vende como paladino da "família tradicional", foi pego no contrapé da própria retórica. Em áudios vazados, aquele que clama publicamente pelo direito inalienável do feto à vida sugere, na intimidade, que sua então namorada interrompa uma gravidez. Não se trata apenas de uma contradição pessoal; é a prova viva de que, para muitos, a pauta antiaborto é apenas uma ferramenta de controle social e palanque eleitoral.

O que mais choca no conteúdo revelado não é apenas a sugestão do procedimento, mas a naturalidade com que o parlamentar descreve o acesso ao aborto em clínicas de elite de São Paulo. Para ele, o método é uma "sucção segura de 25 minutos" feita por especialistas, garantindo que não haveria riscos ou exposição. Enquanto isso, aqui em São Luís e em tantos rincões desse Brasil desigual, mulheres negras e periféricas são empurradas para a clandestinidade, para métodos cruéis e para a morte. A "defesa da vida" desse tipo de político só vale quando não é a vida dele ou a sua reputação que estão em jogo.

A desculpa apresentada após a repercussão é o auge do cinismo político: um "pensamento pecador" em um "momento de fraqueza". Tentar transferir para o campo da religião e do erro individual um comportamento que tem implicações políticas diretas é uma manobra rasteira para fugir da responsabilidade. Quem vota e milita para manter o aborto no código penal está conscientemente votando para que outras mulheres sejam presas. Quando esse mesmo legislador busca a "solução rápida" para si, ele perde qualquer autoridade moral para ditar as regras sobre o corpo de qualquer cidadã.

O pedido de cassação protocolado na Assembleia Legislativa de São Paulo é o caminho institucional mínimo. Não podemos permitir que o parlamento seja um refúgio para quem prega uma lei de ferro para o povo e uma saída de ouro para os seus. Se o procedimento é considerado "seguro e sem riscos" na clínica particular que o deputado conhece bem, por que ele trabalha ativamente para que esse mesmo acesso à saúde seja negado à mulher que depende do SUS e que morre por falta de assistência?

A solução para esse abismo de injustiça não virá de pedidos de desculpas ensaiados no Instagram. Precisamos de uma reforma urgente que tire o aborto do campo da moralidade seletiva e o coloque onde ele realmente pertence: na saúde pública e nos direitos reprodutivos. É necessário descriminalizar para que a lei seja igual para todas, e não apenas um fardo para quem não tem dinheiro para pagar por uma "sucção de 20 minutos". Até quando vamos aceitar que a elite decida quem vive e quem morre baseada em sua própria conveniência?

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