quarta-feira, 1 de abril de 2026

A SUSTENTABILIDADE DO ORÇAMENTO SOB TESTE

Por trás dos números do novo arcabouço, o desafio estrutural de conter despesas obrigatórias e manter a confiança institucional.

Por: Henrique Alvarenga
Jornalista, analista político e colunista

O desafio de equilibrar contas em um país
de despesas engessadas. 

Para além do discurso político de polarização, os fatos mostram que a responsabilidade fiscal é uma pré-condição para o crescimento sustentável. O debate que se impõe agora não é sobre a necessidade do ajuste, mas sobre a sua qualidade. Medidas paliativas, como o contingenciamento temporário ou a revisão de cadastros sociais (o chamado pente-fino), são importantes, mas não substituem uma reforma estrutural que enfrente a indexação de despesas. O país precisa decidir se manterá um orçamento engessado por corporativismos ou se fará a transição para uma gestão pública baseada em eficiência e resultados mensuráveis.

O cenário fiscal brasileiro atravessa um momento de definição crítica. Após a implementação do Novo Arcabouço Fiscal, a atenção de analistas e do mercado financeiro deslocou-se da teoria para a prática: a capacidade real do governo em equilibrar as contas públicas em um ambiente de alta rigidez orçamentária. O orçamento brasileiro é marcado por um paradoxo institucional, onde a quase totalidade das receitas está previamente carimbada para despesas obrigatórias, como previdência e pessoal, deixando pouco espaço para o investimento e para a gestão discricionária.

A manutenção da meta de déficit zero, defendida pela equipe econômica, enfrenta resistências naturais tanto no Executivo quanto no Legislativo. Recentemente, a estratégia de focar quase exclusivamente no aumento da arrecadação começou a demonstrar sinais de exaustão. O aumento da carga tributária encontra barreiras políticas e econômicas, o que forçou o governo a iniciar discussões sobre o corte de gastos. No entanto, essas medidas são tecnicamente complexas, pois envolvem revisões de benefícios sociais e ajustes em regras de indexação que possuem forte apelo popular e político.

Um ponto central de instabilidade reside no crescimento das emendas parlamentares, que têm transformado a execução orçamentária em um território de disputa constante. O avanço do Congresso sobre fatias cada vez maiores do orçamento reduz a capacidade de planejamento central do Estado e pulveriza recursos em projetos de curto prazo e baixa visão sistêmica. Esse fenômeno, embora atenda a demandas regionais imediatas, compromete a estratégia de longo prazo necessária para a estabilização da dívida pública em relação ao PIB.

O mercado financeiro, por sua vez, reage à incerteza fiscal com a elevação dos juros futuros e a volatilidade do câmbio. A percepção de risco fiscal não é meramente um dado abstrato; ela se traduz em custos maiores para o financiamento da dívida e em menor previsibilidade para o investimento privado. Sem um sinal claro de que os gastos obrigatórios serão contidos ou que o teto do arcabouço será respeitado com rigor, a credibilidade das instituições econômicas permanece sob constante questionamento, exigindo do Banco Central uma postura mais conservadora na política monetária.

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