Enquanto deputados que trabalham três dias por semana pregam a exaustão do povo, PEC que reduz jornada enfrenta barreiras da elite política e econômica em Brasília.
Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais
| Quem defende a escala 6x1 defende a exploração. |
É inadmissível que em pleno 2026 ainda precisemos explicar o óbvio: o trabalhador brasileiro não é uma máquina de lucro infinito para patrão. A proposta de redução da jornada de trabalho para a escala 5x2 ou o fim da massacrante 6x1 não é apenas uma pauta econômica, é uma questão de dignidade humana básica. No Maranhão e em todo o Brasil, o que vemos são pais e mães de família que saem de casa no escuro e voltam no escuro, sem tempo para ver os filhos crescerem ou para cuidar da própria saúde mental, tudo para manter um sistema que os quer exaustos e submissos.
Enquanto
isso, nos corredores climatizados de Brasília, figuras como o deputado Marco
Feliciano têm a audácia de pregar que o trabalho dignifica o homem através da
exaustão. É muito fácil falar em sacrifício quando se tem um salário gordo,
auxílios de todo tipo e uma rotina parlamentar que mal exige presença física
quatro dias por semana. A fala de Feliciano, além de cruel, é mentirosa. Dados
da OCDE mostram que o Brasil já é um dos países que mais trabalha no mundo,
ocupando a 10ª posição em horas trabalhadas, à frente de potências que ele tanto
idolatra, como os Estados Unidos. O Japão, que ele cita como exemplo de
exaustão, sequer está nessa lista de excessos. Ou seja: o brasileiro já se
esgota, mas o lucro dessa exaustão nunca chega ao seu bolso.
A
resistência à PEC, articulada por lideranças do PL e do União Brasil, mostra de
que lado esses políticos realmente estão. Ao se unirem a grandes empresários
para barrar a discussão na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), eles dão
as costas para os 80% da população que clamam pelo fim dessa escala abusiva. O
pedido de vista que adiou a votação é a velha tática de ganhar tempo para
desidratar a proposta, esperando que o povo canse de protestar. Mas as
manifestações na Avenida Paulista e a mobilização digital do movimento Vida
Além do Trabalho mostram que a paciência da classe trabalhadora esgotou.
O argumento de que a redução da jornada quebraria o país é uma falácia neoliberal requentada. Países desenvolvidos já entenderam que um trabalhador descansado é mais produtivo, mais criativo e consome mais, girando a economia de forma saudável. No Brasil, o que emperra o crescimento não é o descanso do trabalhador, mas a concentração de renda obscena e uma carga tributária que pune quem produz e protege quem especula. Quem defende que o outro trabalhe até a exaustão não está defendendo a economia, está defendendo o direito de explorar o próximo como se fôssemos colônias de exploração permanentes.
Precisamos de uma reforma que coloque a vida no centro do debate. Não há prosperidade real em uma sociedade onde o trabalhador é um zumbi corporativo. A solução passa obrigatoriamente pela aprovação imediata do relatório favorável na CCJ e pela pressão popular constante sobre cada parlamentar que ousa votar contra o tempo de vida do seu próprio eleitor. A redução da jornada sem redução salarial é o primeiro passo para devolver ao brasileiro o direito de ter uma vida, e não apenas uma sobrevivência. A pergunta que fica para os deputados é: vocês servem ao povo ou aos donos das empresas que financiam seus privilégios?




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