segunda-feira, 6 de abril de 2026

O ISOLAMENTO DE DUARTE JR. E A POLÍTICA COMO JOGO DE SOBREVIVÊNCIA

No tabuleiro de 2026, a busca por abrigo partidário revela um Maranhão onde o capital eleitoral vale mais que o compromisso programático, deixando a justiça social em segundo plano.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Defensora de Direitos Sociais

O isolamento de Duarte Jr. revela as entranhas
do poder no Maranhão.
A recente e conturbada migração de Duarte Jr. para o União Brasil, seguida de um veto quase imediato dentro da federação com o Progressistas (PP), escancara as vísceras de uma política maranhense movida estritamente pela sobrevivência individual. O deputado federal, que deixou o PSB em busca de um novo porto seguro, viu-se subitamente isolado em um cenário onde ter votos — mais de 111 mil na última eleição — tornou-se, ironicamente, o seu maior passivo. Em vez de ser disputado por sua força nas urnas, Duarte passou a ser visto como uma ameaça à 'matemática da reeleição' de seus próprios aliados, como a deputada Amanda Gentil, que liderou a resistência à sua permanência na chapa.

Este episódio é o retrato fiel do abismo entre o discurso público e a realidade dos bastidores. Enquanto a população de São Luís e do interior do Maranhão clama por políticas públicas que enfrentem a fome e o desemprego, os caciques partidários debruçam-se sobre calculadoras para decidir quem pode ou não entrar no jogo. A política de coalizão, que deveria servir para fortalecer projetos coletivos de Estado, transformou-se em uma barreira para evitar que nomes com densidade eleitoral ameacem a perpetuação dos mesmos grupos no poder. O pragmatismo, aqui, soterra qualquer tentativa de debate ideológico ou compromisso com pautas sociais.

Não se pode ignorar, contudo, o componente ético e estratégico que acelerou o isolamento de Duarte. Sua atuação na CPMI do INSS, onde mirou diretamente o presidente nacional do PP, Ciro Nogueira, criou um ambiente de hostilidade mútua que tornou a convivência na mesma federação insustentável. Ao tocar no 'vespeiro' das relações entre parlamentares e o sistema financeiro, Duarte escolheu um caminho de enfrentamento que a política tradicional maranhense raramente perdoa. O resultado é o rótulo de 'persona non grata' não apenas na direita, mas também em setores da esquerda, como PT e PCdoB, que agora fecham as portas para o parlamentar, acusando-o de um individualismo que ignora a visão de grupo.

A situação de Duarte Jr., que corre contra o relógio para encontrar uma sigla que viabilize sua candidatura em 2026, reflete a fragilidade das nossas instituições partidárias. Quando um deputado é 'rifado' por ser votado demais, o sinal de alerta para a democracia é máximo: o sistema está calibrado para proteger os detentores de mandato, não para renovar as ideias ou representar o povo. Essa dança das cadeiras, mediada pelo Ministro Juscelino Filho e pelo governador Carlos Brandão, ignora sistematicamente as necessidades urgentes da periferia, que permanece como mera espectadora desses arranjos de cúpula.

Como jornalista que acompanha a luta por justiça social, vejo com preocupação esse cenário de 'apartheid político', onde o acesso ao jogo eleitoral depende mais de acordos de bastidores do que do respaldo popular. Se as alianças para 2026 continuarem a ser costuradas apenas com o fio do interesse próprio, o Maranhão chegará às urnas com chapas montadas no vácuo de propostas reais para o combate à desigualdade. A política não pode ser um clube privado de sobrevivência; ela deve ser, antes de tudo, o instrumento para garantir que os direitos humanos e a dignidade do cidadão maranhense não sejam meras notas de rodapé em tabelas de votos.

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