terça-feira, 7 de abril de 2026

A FÉ COMO ADEREÇO: O MERCANTILISMO DA ALMA NO PALANQUE

A instrumentalização do sagrado e a hipocrisia como método de manutenção do poder nas instâncias políticas.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

A fé não pode ser mercadoria de palanque.

Não é de hoje que o altar e o palanque ensaiam um matrimônio de conveniência, mas a atual conjuntura brasileira elevou essa união ao patamar de um espetáculo grotesco. O que assistimos, sob a égide de um moralismo de fachada, é a transformação da fé em um ativo financeiro e eleitoral. O sagrado, que deveria ser o refúgio da transcendência e da ética, foi sequestrado por mercadores do templo que descobriram na política o terreno mais fértil para expandir seus impérios materiais e sua influência sobre as massas.
Defender o Estado laico não é ser contra a religião, muito pelo contrário. É garantir que a fé não seja aviltada pelo jogo sujo da política e que ninguém seja governado por dogmas alheios. Quando a política se traveste de religião, ela se torna inquestionável e autoritária. Precisamos resgatar a política para o campo do debate público e devolver a religião ao foro íntimo e comunitário da espiritualidade. Caso contrário, continuaremos a ver o nome de Deus ser usado em vão para justificar o que há de mais mundano e vil no exercício do poder.

A tal "moral seletiva" é o motor dessa engrenagem. É fascinante — e profundamente irritante — observar como certos líderes religiosos e seus representantes políticos conseguem ser implacáveis contra a diversidade e os direitos civis, enquanto silenciam de forma ensurdecedora diante da fome, do desmatamento e da corrupção escancarada. Para essa turma, o pecado parece ter endereço fixo: reside sempre na liberdade alheia, jamais na própria ganância ou na precarização da vida do povo. O evangelho da exclusão substituiu o da compaixão.

No cenário maranhense, a situação não é diferente. Em São Luís, vemos figuras que transitam entre o púlpito e a tribuna com a naturalidade de quem troca de figurino para uma peça de teatro. A instrumentalização da fé aqui ganha contornos de coronelismo renovado, onde o voto não é mais conquistado pela proposta, mas pela ameaça espiritual ou pela promessa de bênçãos políticas. O uso do nome de Deus para validar alianças espúrias nas câmaras municipais e nas assembleias é uma ofensa à inteligência do eleitor e à própria religiosidade.

O bolsonarismo, é claro, foi o grande catalisador desse movimento de erosão institucional. Ao adotar o slogan "Deus, Pátria, Família", apropriou-se de símbolos caros a milhões de brasileiros para camuflar um projeto de poder que, na prática, despreza os ensinamentos básicos de qualquer doutrina humanista. A moralidade evocada é puramente estética; serve para as redes sociais, mas dissolve-se no primeiro contrato de orçamento secreto ou na primeira tentativa de golpe de Estado.


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