A instrumentalização do sagrado e a hipocrisia como método de manutenção do poder nas instâncias políticas.
Por:
Altair Inácio
Jornalista e Colunista
| A fé não pode ser mercadoria de palanque. |
Não é de
hoje que o altar e o palanque ensaiam um matrimônio de conveniência, mas a
atual conjuntura brasileira elevou essa união ao patamar de um espetáculo
grotesco. O que assistimos, sob a égide de um moralismo de fachada, é a
transformação da fé em um ativo financeiro e eleitoral. O sagrado, que deveria
ser o refúgio da transcendência e da ética, foi sequestrado por mercadores do
templo que descobriram na política o terreno mais fértil para expandir seus
impérios materiais e sua influência sobre as massas.
Defender o Estado laico não é ser contra a religião,
muito pelo contrário. É garantir que a fé não seja aviltada pelo jogo sujo da
política e que ninguém seja governado por dogmas alheios. Quando a política se
traveste de religião, ela se torna inquestionável e autoritária. Precisamos
resgatar a política para o campo do debate público e devolver a religião ao
foro íntimo e comunitário da espiritualidade. Caso contrário, continuaremos a
ver o nome de Deus ser usado em vão para justificar o que há de mais mundano e
vil no exercício do poder.
A tal
"moral seletiva" é o motor dessa engrenagem. É fascinante — e
profundamente irritante — observar como certos líderes religiosos e seus representantes
políticos conseguem ser implacáveis contra a diversidade e os direitos civis,
enquanto silenciam de forma ensurdecedora diante da fome, do desmatamento e da
corrupção escancarada. Para essa turma, o pecado parece ter endereço fixo:
reside sempre na liberdade alheia, jamais na própria ganância ou na
precarização da vida do povo. O evangelho da exclusão substituiu o da
compaixão.
No cenário
maranhense, a situação não é diferente. Em São Luís, vemos figuras que
transitam entre o púlpito e a tribuna com a naturalidade de quem troca de
figurino para uma peça de teatro. A instrumentalização da fé aqui ganha
contornos de coronelismo renovado, onde o voto não é mais conquistado pela
proposta, mas pela ameaça espiritual ou pela promessa de bênçãos políticas. O
uso do nome de Deus para validar alianças espúrias nas câmaras municipais e nas
assembleias é uma ofensa à inteligência do eleitor e à própria religiosidade.
O bolsonarismo, é claro, foi o grande catalisador desse movimento de erosão institucional. Ao adotar o slogan "Deus, Pátria, Família", apropriou-se de símbolos caros a milhões de brasileiros para camuflar um projeto de poder que, na prática, despreza os ensinamentos básicos de qualquer doutrina humanista. A moralidade evocada é puramente estética; serve para as redes sociais, mas dissolve-se no primeiro contrato de orçamento secreto ou na primeira tentativa de golpe de Estado.




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