quarta-feira, 15 de abril de 2026

A BOLSA BATE RECORDE, MAS O LUCRO VAI PARA O CAPITAL ESTRANGEIRO

Enquanto o capital estrangeiro irriga a B3 com recordes históricos, o investidor brasileiro amarga o custo de ter acreditado nos profetas do apocalipse digital.

Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica

Quando a ideologia entra na corretora, o lucro sai pela janela.
A política brasileira é, acima de tudo, um exercício de sobrevivência a profecias não cumpridas. Há quem diga que a memória é curta, mas os números da B3 nesta semana resolveram refrescar o juízo de muita gente. Ao atingir a marca histórica de 198 mil pontos, a bolsa de valores não apenas bateu um recorde numérico, mas implodiu uma narrativa cuidadosamente construída nos últimos anos: a de que o país estaria em uma rota irremediável rumo ao abismo econômico sob a batuta de Lula. O que vemos, contudo, é o capital estrangeiro ignorando o barulho das redes sociais e apostando pesado no que os dados reais indicam.

É fascinante observar o descompasso entre a percepção doméstica e a leitura global. Enquanto investidores internacionais injetaram R$ 65 bilhões no Brasil apenas em 2025, registrando entradas diárias que fariam qualquer gestor de fundo sorrir de orelha a orelha, o investidor de varejo brasileiro bateu seu menor índice de participação desde 1994. O motivo? Uma dieta rigorosa de medo servida por influenciadores de finanças que confundiram análise técnica com palanque ideológico. O brasileiro médio, assustado por algoritmos que prometiam o caos, ficou assistindo da calçada enquanto o dinheiro de fora aproveitava a festa.

Essa cegueira deliberada tem método e história. É impossível não recordar a máxima hiperbólica de Paulo Guedes em 2021, quando vaticinou que o Brasil levaria apenas seis meses para virar a Argentina e um ano e meio para se transformar na Venezuela se os rumos políticos mudassem. O tempo, esse senhor implacável da razão, passou. O que temos hoje não é a escassez venezuelana, mas um fluxo recorde de capital que mostra que, para o investidor estrangeiro, a segurança jurídica e o equilíbrio institucional parecem muito mais sólidos do que as correntes de WhatsApp sugeriam.

O fenômeno dos 'influenciadores do caos' revela uma faceta perversa da nossa comunicação política contemporânea: a monetização do ressentimento. Ao vender a ideia de que o governo atual destruiria a economia, esses personagens não apenas erraram a previsão, mas causaram prejuízo real ao patrimônio de quem os segue. O investidor estrangeiro, que não gasta tempo com brigas de ego no Twitter, leu os balanços, viu a estabilidade e aproveitou o 'desconto' gerado pelo pessimismo nacionalista. É a ironia suprema: os 'patriotas' da rede social entregaram o lucro do país de bandeja para o capital global.

A resposta de Lula, que sempre prometeu provar que o pessimismo era uma ferramenta política e não um dado econômico, vem em forma de dígitos verdes na tela do pregão. Para o governo, esses 198 mil pontos são mais do que uma vitória econômica; são um troféu simbólico contra a desinformação. Resta saber se o brasileiro que ficou de fora dessa valorização histórica aprenderá a lição: em economia, quem segue o fígado costuma perder o bolso, especialmente quando o fígado está intoxicado por narrativas de quem lucra com o medo alheio.

0 comentários:

Postar um comentário

Buscar no Site