Como a instrumentalização do sagrado transformou o púlpito no palanque mais lucrativo da República.
Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica
| A análise sobre o uso da religião no poder. |
O fenômeno,
potencializado durante a ascensão do bolsonarismo, criou uma espécie de
"monopólio da moralidade". Ao sequestrar símbolos religiosos, setores
da extrema-direita conseguiram interditar o debate racional. Se você discorda
de uma política econômica ou de um projeto de lei ambiental, você não é apenas
um opositor político; você é um inimigo da família, um adversário dos valores
divinos. Essa dicotomia infantiliza o eleitorado e blinda o político de
qualquer escrutínio técnico, afinal, quem ousaria questionar os desígnios de um
"enviado"?
Nos
bastidores, a engrenagem é menos mística e muito mais pragmática. A
instrumentalização da religião serve como uma cortina de fumaça perfeita para
esconder as negociações nada santas do Centrão. Enquanto o público se digladia
em guerras culturais e pautas de costumes inflamadas nos grupos de WhatsApp, as
canetadas que definem o futuro do orçamento público seguem em silêncio. O
púlpito virou o palanque mais eficiente do país, capaz de mobilizar massas sem
a necessidade de apresentar um único projeto de desenvolvimento real.
Aqui no Maranhão, a cena se repete com toques de coronelismo renovado. Lideranças locais descobriram que é muito mais barato investir em um discurso messiânico do que em infraestrutura ou educação. A estrutura das igrejas, muitas vezes ocupando o vácuo deixado pelo Estado, torna-se uma rede de distribuição de influência política sem precedentes. O fiel, que busca conforto espiritual, acaba sendo entregue como mercadoria eleitoral em pacotes fechados para o melhor ofertante da temporada.
A grande tragédia dessa simbiose oportunista é o esvaziamento da própria religiosidade. Ao transformar a fé em ferramenta de coerção e exclusão, esses atores políticos corroem o tecido social e desvirtuam a essência de qualquer mensagem humanitária. Quando o "amém" vira senha para o acesso ao fundo partidário, quem perde não é apenas a política, que se torna irracional, mas a própria fé, que se vê reduzida a um adereço de campanha. A democracia brasileira sobrevive, mas carrega as cicatrizes de um Deus que foi forçado a votar por conveniência alheia.




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