terça-feira, 26 de maio de 2026

O EVANGELHO SEGUNDO O CENTRÃO: A FÉ COMO MOEDA DE TROCA EM BRASÍLIA

Como a instrumentalização do sagrado transformou o púlpito no palanque mais lucrativo da República.

Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica

A análise sobre o uso da religião no poder.
Não é de hoje que a cruz e a espada caminham de mãos dadas pelos corredores atochares do poder, mas a sofisticação com que a fé tem sido convertida em capital político no Brasil contemporâneo atingiu um patamar de refinamento quase industrial. O que assistimos não é um despertar espiritual na vida pública, mas sim uma operação de marketing teológico onde o sagrado é fatiado e vendido no balcão de negócios do Congresso Nacional. O Estado, supostamente laico por definição constitucional, assiste passivo à transformação de dogmas em emendas parlamentares.

O fenômeno, potencializado durante a ascensão do bolsonarismo, criou uma espécie de "monopólio da moralidade". Ao sequestrar símbolos religiosos, setores da extrema-direita conseguiram interditar o debate racional. Se você discorda de uma política econômica ou de um projeto de lei ambiental, você não é apenas um opositor político; você é um inimigo da família, um adversário dos valores divinos. Essa dicotomia infantiliza o eleitorado e blinda o político de qualquer escrutínio técnico, afinal, quem ousaria questionar os desígnios de um "enviado"?

Nos bastidores, a engrenagem é menos mística e muito mais pragmática. A instrumentalização da religião serve como uma cortina de fumaça perfeita para esconder as negociações nada santas do Centrão. Enquanto o público se digladia em guerras culturais e pautas de costumes inflamadas nos grupos de WhatsApp, as canetadas que definem o futuro do orçamento público seguem em silêncio. O púlpito virou o palanque mais eficiente do país, capaz de mobilizar massas sem a necessidade de apresentar um único projeto de desenvolvimento real.

Aqui no Maranhão, a cena se repete com toques de coronelismo renovado. Lideranças locais descobriram que é muito mais barato investir em um discurso messiânico do que em infraestrutura ou educação. A estrutura das igrejas, muitas vezes ocupando o vácuo deixado pelo Estado, torna-se uma rede de distribuição de influência política sem precedentes. O fiel, que busca conforto espiritual, acaba sendo entregue como mercadoria eleitoral em pacotes fechados para o melhor ofertante da temporada.

A grande tragédia dessa simbiose oportunista é o esvaziamento da própria religiosidade. Ao transformar a fé em ferramenta de coerção e exclusão, esses atores políticos corroem o tecido social e desvirtuam a essência de qualquer mensagem humanitária. Quando o "amém" vira senha para o acesso ao fundo partidário, quem perde não é apenas a política, que se torna irracional, mas a própria fé, que se vê reduzida a um adereço de campanha. A democracia brasileira sobrevive, mas carrega as cicatrizes de um Deus que foi forçado a votar por conveniência alheia.

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