Uma análise sobre a tentativa frustrada de empurrar para o colo alheio a paternidade de um fenômeno que cresceu no adubo da extrema-direita brasileira.
Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica
| Os bastidores de um banco que cresceu à sombra da amizade política. |
A verdadeira
certidão de nascimento do Master tem o carimbo de Brasília, não de Salvador. No
início de 2019, Daniel Vorcaro tentou adquirir o Banco Máxima — o embrião do
que viria a ser o Master —, mas o Banco Central, ainda sob o resquício de uma
governança técnica anterior, negou a venda. O 'milagre' só aconteceu meses
depois, quando Jair Bolsonaro trocou o comando da autoridade monetária.
Coincidência ou não, as portas que estavam trancadas se abriram magicamente.
Foi sob a égide do bolsonarismo que o negócio ganhou escala, autorização e,
principalmente, as conexões políticas necessárias para uma ascensão meteórica.
O crescimento
do grupo não foi fruto apenas do espírito empreendedor, mas de uma simbiose
explícita com a máquina pública. O cartão CredCesta, comandado por Augusto Lima
— que só se tornou sócio de Vorcaro em 2020 —, encontrou terreno fértil no
Ministério da Cidadania de João Roma, o fiel escudeiro de Flávio Bolsonaro. É
fascinante observar como a burocracia estatal, geralmente lenta e pesada,
tornou-se ágil e solícita quando o assunto era o crédito consignado para
aposentados e beneficiários de programas sociais. Em apenas dois anos, o banco
saltou de 100 mil para quase 3 milhões de contratos. Um fenômeno que faria
qualquer gestor de Wall Street chorar de inveja, ou de suspeita.
A cereja do bolo dessa relação promíscua foi a mudança regulatória feita sob medida. Apenas 16 dias após o braço financeiro do grupo solicitar alterações nas regras de empréstimos, o INSS atendeu prontamente, permitindo que a instituição avançasse sobre a renda dos mais vulneráveis em 24 estados. Não estamos falando de livre mercado, mas de capitalismo de compadrio em sua forma mais pura e ácida. Enquanto a família Bolsonaro bradava contra o 'sistema', seus aliados mais próximos operavam as engrenagens desse mesmo sistema para inflar o faturamento de uma instituição que se tornou o braço financeiro da nova direita.
Agora, com as denúncias batendo à porta e a CPI do Crime Organizado pedindo explicações a João Roma, a estratégia é a de sempre: a cortina de fumaça. Tentam ligar o escândalo ao PT para diluir a culpa, mas os fatos são teimosos. O Banco Master é um filho legítimo do bolsonarismo, alimentado no berçário do poder central e protegido pelas amizades de Flávio e seus irmãos. A ironia reside no fato de que aqueles que pregam a moralidade cristã e a ordem parecem ter um apreço especial por negócios que florescem na zona cinzenta entre o público e o privado, onde o lucro é garantido pela canetada amiga e a conta, como sempre, sobra para o povo.




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