segunda-feira, 25 de maio de 2026

COMO O BANCO MASTER NASCEU E FLORESCEU SOB A SOMBRA DO PLANALTO

Uma análise sobre a tentativa frustrada de empurrar para o colo alheio a paternidade de um fenômeno que cresceu no adubo da extrema-direita brasileira.

Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica

Os bastidores de um banco que cresceu
à sombra da amizade política.
Dizem que na política a memória é curta, mas a matemática e o Diário Oficial costumam ser implacáveis. Há uma tentativa coordenada, quase desesperada, de empurrar para a conta do governo baiano a gênese do Banco Master. A narrativa é sedutora para quem gosta de teorias da conspiração: o Master teria surgido de um suposto acerto nas gestões de Jaques Wagner ou Rui Costa. Contudo, basta uma leitura rápida na linha do tempo para perceber que essa história não resiste a cinco minutos de luz solar. O que houve na Bahia foi o leilão da deficitária Cesta do Povo, arrematada em 2018 por Augusto Lima num processo público. Naquela época, o Banco Master sequer habitava o imaginário do mercado financeiro; era um fantasma que ainda não tinha corpo.

A verdadeira certidão de nascimento do Master tem o carimbo de Brasília, não de Salvador. No início de 2019, Daniel Vorcaro tentou adquirir o Banco Máxima — o embrião do que viria a ser o Master —, mas o Banco Central, ainda sob o resquício de uma governança técnica anterior, negou a venda. O 'milagre' só aconteceu meses depois, quando Jair Bolsonaro trocou o comando da autoridade monetária. Coincidência ou não, as portas que estavam trancadas se abriram magicamente. Foi sob a égide do bolsonarismo que o negócio ganhou escala, autorização e, principalmente, as conexões políticas necessárias para uma ascensão meteórica.

O crescimento do grupo não foi fruto apenas do espírito empreendedor, mas de uma simbiose explícita com a máquina pública. O cartão CredCesta, comandado por Augusto Lima — que só se tornou sócio de Vorcaro em 2020 —, encontrou terreno fértil no Ministério da Cidadania de João Roma, o fiel escudeiro de Flávio Bolsonaro. É fascinante observar como a burocracia estatal, geralmente lenta e pesada, tornou-se ágil e solícita quando o assunto era o crédito consignado para aposentados e beneficiários de programas sociais. Em apenas dois anos, o banco saltou de 100 mil para quase 3 milhões de contratos. Um fenômeno que faria qualquer gestor de Wall Street chorar de inveja, ou de suspeita.

A cereja do bolo dessa relação promíscua foi a mudança regulatória feita sob medida. Apenas 16 dias após o braço financeiro do grupo solicitar alterações nas regras de empréstimos, o INSS atendeu prontamente, permitindo que a instituição avançasse sobre a renda dos mais vulneráveis em 24 estados. Não estamos falando de livre mercado, mas de capitalismo de compadrio em sua forma mais pura e ácida. Enquanto a família Bolsonaro bradava contra o 'sistema', seus aliados mais próximos operavam as engrenagens desse mesmo sistema para inflar o faturamento de uma instituição que se tornou o braço financeiro da nova direita.

Agora, com as denúncias batendo à porta e a CPI do Crime Organizado pedindo explicações a João Roma, a estratégia é a de sempre: a cortina de fumaça. Tentam ligar o escândalo ao PT para diluir a culpa, mas os fatos são teimosos. O Banco Master é um filho legítimo do bolsonarismo, alimentado no berçário do poder central e protegido pelas amizades de Flávio e seus irmãos. A ironia reside no fato de que aqueles que pregam a moralidade cristã e a ordem parecem ter um apreço especial por negócios que florescem na zona cinzenta entre o público e o privado, onde o lucro é garantido pela canetada amiga e a conta, como sempre, sobra para o povo.

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