Enquanto o 'Mito' tateia a inelegibilidade, seus herdeiros disputam o espólio de uma narrativa alimentada pelo ressentimento e pela desinformação.
Por: Altair Inácio
Colunista de análise política crítica
| A inelegibilidade é o novo palanque do martírio planejado. |
Por fim, o desafio das forças progressistas e democráticas não é apenas vencer eleições, mas reconstruir o pacto de realidade com a população. Enquanto o bolsonarismo viver da fragmentação da verdade e da exploração do ressentimento, a democracia brasileira caminhará sobre gelo fino. É preciso mais do que discursos institucionais; é necessário ocupar os espaços de comunicação que foram cedidos ao ódio. A política brasileira vive o seu momento mais cínico, e o silêncio diante da hipocrisia é, no fim das contas, uma forma de cumplicidade.
A estética
da indignação permanente foi substituída por uma tática de guerrilha
institucional. Nos bastidores de Brasília, a herança deixada não é apenas de
nomes, mas de um método: a deslegitimação das instituições como ferramenta de
marketing. O 8 de janeiro, longe de ser um ponto final, tornou-se o grande
trunfo narrativo para a manutenção de uma base radicalizada que se alimenta de
teorias conspiratórias e de uma sensação de perseguição messiânica, alimentada
por algoritmos que não conhecem a ética.
A disputa
pela sucessão desse capital político revela o lado mais pragmático e, por
vezes, cômico da nossa direita. De um lado, governadores que tentam equilibrar
o figurino de 'gestor eficiente' com piscadelas para o extremismo; do outro, a
prole do ex-presidente, que tenta manter a rédea curta sobre o movimento. É um
jogo de espelhos onde a lealdade é um conceito fluido e o objetivo final é
apenas um: quem herdará o canal de Telegram onde a realidade é moldada conforme
o gosto do freguês.
Não se pode
ignorar o papel da instrumentalização religiosa nesse processo de sobrevida. A
política transformou-se em uma cruzada moralista, onde o debate sobre políticas
públicas é sufocado por pautas de costumes manufaturadas para gerar pânico
social. O templo, para muitos, virou extensão do palanque, e a fé,
infelizmente, tornou-se moeda de troca em um mercado onde a verdade é o item
mais escasso. Essa amálgama entre o sagrado e o profano político é, talvez, a
herança mais difícil de ser revertida.




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