Enquanto o poder se protege entre gabinetes, a corda sempre arrebenta no pescoço de quem não tem voz nem acesso à justiça real.
Por: Marília Azevêdo
Jornalista e defensora de direitos sociais
| O abuso de poder em São Luís tem cor e classe social. |
A justiça no Brasil, infelizmente, ainda não é cega; ela tem olhos muito bem abertos para a cor da pele, o endereço e o saldo bancário. Quando falamos em abuso de poder, não estamos tratando apenas de um detalhe jurídico, mas de uma ferida aberta que sangra diariamente nas periferias de São Luís e de todo o país. É o trabalhador humilhado, a mãe de família que não consegue ser ouvida e o jovem que é tratado como culpado antes mesmo de qualquer investigação. O poder, que deveria servir para garantir direitos, muitas vezes se transforma em uma arma de opressão contra os mais vulneráveis.
Aqui em
nossa São Luís, a realidade das comunidades mostra o que é essa 'justiça
seletiva'. Nos bairros nobres, o direito à defesa é amplo e as falhas
processuais viram liberdade imediata. Já nos bairros esquecidos pelo poder
público, o Estado só chega com a mão pesada da repressão, sem diálogo e sem garantias.
Esse abismo social é alimentado por agentes públicos que acreditam estar acima
da lei, confundindo autoridade com autoritarismo e usando o cargo para
satisfazer egos ou interesses políticos escusos.
O
corporativismo institucional é o combustível desse abuso. Quando um juiz, um
policial ou um político ultrapassa o limite da lei, as instituições tendem a se
fechar em um silêncio cúmplice. É a velha política do 'uma mão lava a outra'
enquanto o povo assiste, indignado, à impunidade de quem deveria dar o exemplo.
Não podemos mais aceitar que o cargo público seja um escudo para malfeitos. O
servidor é pago pelo povo e deve satisfações ao povo, sem exceções ou
privilégios de classe que blindam o erro.
Esse cenário gera um ciclo perigoso de desconfiança. Se o cidadão comum não acredita que será protegido pela lei, ele se sente desamparado e a democracia se enfraquece. O abuso de poder não fere apenas a vítima direta; ele destrói o tecido social e abre espaço para a barbárie. Quando a 'carteirada' se torna uma prática comum, o que morre é a esperança de um país mais igualitário e justo, onde o mérito e a ética deveriam valer mais do que as conexões políticas.
A solução para essa crise não virá de cima para baixo, mas sim do fortalecimento do controle social e da transparência absoluta. Precisamos de conselhos tutelares e de segurança com participação popular real, além de ouvidorias externas que não tenham medo de punir quem abusa da farda ou da caneta. A pergunta que fica para os nossos governantes é: quando é que a lei será, de fato, o escudo do pequeno e não apenas o tapete vermelho para o grande? Justiça só é justiça se for para todos.




0 comentários:
Postar um comentário